pessoas e lugares

Pessoaselugares

 

Quando há cerca de cinco anos a expressão “trabalho com pessoas e lugares” começou a fazer parte dos nossos relatórios para designar as actividades que o c.e.m fazia na rua, ela era para mim mais ou menos a soma das partes que a constituem: trabalho + pessoas + lugares.
Hoje passadas quatro edições do Projecto artístico-social Pedras d’Água reparo que estas palavras foram deixando de ser uma solução de nomeação para um conjunto de acções que nos propúnhamos fazer e que envolvia pessoas e lugares físicos, para passar a designar uma experiência. Para mim, hoje, trabalho com pessoas e lugares não é então uma justaposição de interesses nem um conjunto de tarefas mas uma especificidade de encontro.
Detecto que as propostas que alimentamos no c.e.m têm muitas vezes essa característica: como não trabalhamos por objectivos mas por urgências, frequentemente organizamos palavras pela necessidade de nomear o indizível até que ele pela insistência da prática se transforma de facto em algo que pode ser dito e então vai ocupando o lugar do nome que lhe foi destinado.
Leio agora a expressão Pessoas e Lugares e encontro-a verdadeiramente pertinente, preenchida , vibrante. Uma porta de entrada para uma relação que reúne de uma só vez eu, o outro e o lugar, permitindo-me diluir e concentrar livremente dentro deles.
Pessoas e Lugares não fala de quem nem de onde, mas da experiência de Estar Com. Também não fala de “O quê”. Estar Com para nós não denuncia a necessidade de um quê para onde desagua o Estar. Pessoas e Lugares não são por isso alvos a “estar com”, mas sim potenciadores da relação que faz aparecer a particularidade da acção Estar Com enquanto ela própria, sem necessidade de qualquer finalidade para se cumprir. É dessa atenção, desse espaço aberto que convida a fazer aparecer o que até aqui não tinha forma, que se reorganiza tudo o resto que já lá estava , da mesma forma evidente que colocar mais uma rosa num bouquet obriga a que todas as outras flores que já lá estavam se reposicionem. Não se trata portanto de uma obrigação filosófica ou moral mas de uma evidência física.
Para mim é no fazer tocar essa evidência (do potencial da realidade) que recai a pertinência do trabalho que fazemos na rua – com as pessoas e os lugares.

 

Margarida Agostinho - Gestão Artística

 

Revista ‘Pessoas e Lugares’ - Introdução de Christine Greiner
Revista ‘Pessoas e Lugares’ [Março 2010]