Ivone e Aurora
Agora Ivone e Aurora vão ter que se mudar para outro lugar. Um lar. O velho edifício da rua nova do Almada vai ser reconstruído.
Às duas da tarde Aurora está mais rezingona e agressiva. “Tem muitos ciúmes da irmã” diz a assistente social enquanto colher após colher, numa cadência alucinante, vai dando o almoço à mais velha. “Tenho muitas acamadas, esta senhora tem muita força mas já passou do limite, não aguenta um lar…”
Como estamos nós com os nossos velhotes? Com os diferentes? Com os não úteis? Úteis em quê?
Como é possível tanta falta de espaço para aqueles que já correram, amaram, choraram como nós? Quantos não terão ficado esquecidos nos últimos andares de casas sem elevador?
Que ideia existe então de família?
Que tempo é este que nos mente assim sobre o nosso próprio caminho?
Que engano vivemos que não nos permite ver quem somos?
Vêem-me à lembrança arvores e mais arvores e mais arvores. Vejo vento e vejo verde e vejo água, não sei que mais poderei ver que permita encontrar a malha que une a costureira acamada com aquela que queria ter sido professora, comigo e com o mundo.
Porque nos teremos cruzado agora?
Que lugar é o meu nesta trama?
Não está mesmo nada claro!
Ontem à noite estive a conversar com a minha irmã Filipa sobre uma bailarina que se suicidou, mãe de um filho pequenino. Onde estava o desespero? Onde estava a limpidez? Onde está? Onde encontrar a capacidade e a coragem de criar uma estrutura de ser?
O meu filho André deu-me um pano com arvores. Diz-me que tingiu o tecido ao acaso com tinta azul, depois torceu, olhou o resultado e achou que o verde ia ficar bem: “Dou-te a floresta Amazónica”
………………………………………………………………………………………….....
Enquanto a água se escoa.
Os dedos retorcidos como ramos desembrulham-se lentamente nas minhas mãos. Já é morte mas ainda é vida, quando se revela a mudança? Que sopro é esse? E a criação?
Porque teima em surgir, crescer, estar?
Quanto de beleza nas sombras, na voz, nas correrias do vento?
Entre as arvores passam fios de luz.
O jardim está manchado de cores. Enquanto o Sol viaja, viaja a Terra.
O peito desaperta-se ao sabor do verde, ao sabor da fala das crianças e dos pássaros. O começo dos namoros, a pele cintilante, as folhas cintilantes. Toca o sino da Basílica da Estrela. Lisboa dentro de Lisboa.
Por cima do corpo de Ivone, tão perto que ela mal caberia sentada na cama, estica-se o tecto de madeira esbranquiçada que lhe guarda uma amiga invisível.
“Ela já não está cá!” diz a Aurora arrastando os chinelos agarrada às paredes corredor fora. Está onde então?
Lembro-me bem da translucidez da minha avó ou da minha tia enquanto, o corpo de evaporava.
Lá me chega o avô Mário, o poeta, como um bambu curvado. Os olhos enchem-se de lágrimas. O amor é sempre vivo.
Parece-me agora que cada um de nós vive num novelo mal enrolado, no interior de um enxame de partículas que se dissipam ou congregam à mercê da nossa capacidade de acreditar que os olhos se podem esticar para lá desse cerco. Ao sabor da mobilidade de estar vivo.
Agora voltam as arvores, tão vivas e tão enraizadas num lugar. Desloca-se o pólen das flores, transitam a água e o ar, viajam Aurora e Ivone no meu peito como um abraço.
O que é a liberdade? Entre ir e ficar, entre a morte e a vida, onde está Ivone?
Enquanto a água passa.
Vemo-nos no Festival Pedras d'Água sofia neuparth
Agora Ivone e Aurora vão ter que se mudar para outro lugar. Um lar. O velho edifício da rua nova do Almada vai ser reconstruído.
Às duas da tarde Aurora está mais rezingona e agressiva. “Tem muitos ciúmes da irmã” diz a assistente social enquanto colher após colher, numa cadência alucinante, vai dando o almoço à mais velha. “Tenho muitas acamadas, esta senhora tem muita força mas já passou do limite, não aguenta um lar…”
Como estamos nós com os nossos velhotes? Com os diferentes? Com os não úteis? Úteis em quê?
Como é possível tanta falta de espaço para aqueles que já correram, amaram, choraram como nós? Quantos não terão ficado esquecidos nos últimos andares de casas sem elevador?
Que ideia existe então de família?
Que tempo é este que nos mente assim sobre o nosso próprio caminho?
Que engano vivemos que não nos permite ver quem somos?
Vêem-me à lembrança arvores e mais arvores e mais arvores. Vejo vento e vejo verde e vejo água, não sei que mais poderei ver que permita encontrar a malha que une a costureira acamada com aquela que queria ter sido professora, comigo e com o mundo.
Porque nos teremos cruzado agora?
Que lugar é o meu nesta trama?
Não está mesmo nada claro!
Ontem à noite estive a conversar com a minha irmã Filipa sobre uma bailarina que se suicidou, mãe de um filho pequenino. Onde estava o desespero? Onde estava a limpidez? Onde está? Onde encontrar a capacidade e a coragem de criar uma estrutura de ser?
O meu filho André deu-me um pano com arvores. Diz-me que tingiu o tecido ao acaso com tinta azul, depois torceu, olhou o resultado e achou que o verde ia ficar bem: “Dou-te a floresta Amazónica”
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Enquanto a água se escoa.
Os dedos retorcidos como ramos desembrulham-se lentamente nas minhas mãos. Já é morte mas ainda é vida, quando se revela a mudança? Que sopro é esse? E a criação?
Porque teima em surgir, crescer, estar?
Quanto de beleza nas sombras, na voz, nas correrias do vento?
Entre as arvores passam fios de luz.
O jardim está manchado de cores. Enquanto o Sol viaja, viaja a Terra.
O peito desaperta-se ao sabor do verde, ao sabor da fala das crianças e dos pássaros. O começo dos namoros, a pele cintilante, as folhas cintilantes. Toca o sino da Basílica da Estrela. Lisboa dentro de Lisboa.
Por cima do corpo de Ivone, tão perto que ela mal caberia sentada na cama, estica-se o tecto de madeira esbranquiçada que lhe guarda uma amiga invisível.
“Ela já não está cá!” diz a Aurora arrastando os chinelos agarrada às paredes corredor fora. Está onde então?
Lembro-me bem da translucidez da minha avó ou da minha tia enquanto, o corpo de evaporava.
Lá me chega o avô Mário, o poeta, como um bambu curvado. Os olhos enchem-se de lágrimas. O amor é sempre vivo.
Parece-me agora que cada um de nós vive num novelo mal enrolado, no interior de um enxame de partículas que se dissipam ou congregam à mercê da nossa capacidade de acreditar que os olhos se podem esticar para lá desse cerco. Ao sabor da mobilidade de estar vivo.
Agora voltam as arvores, tão vivas e tão enraizadas num lugar. Desloca-se o pólen das flores, transitam a água e o ar, viajam Aurora e Ivone no meu peito como um abraço.
O que é a liberdade? Entre ir e ficar, entre a morte e a vida, onde está Ivone?
Enquanto a água passa.
Vemo-nos no Festival Pedras d'Água sofia neuparth

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