16.6.08
Pedras d’Água Criação 2008
Estamos no terceiro ano de apresentação de trabalhos de criadores a partir da relação estabelecida com espaços e com pessoas. Este conjunto de propostas quase se chamou ”Isto não é um festival” por proposta de Ana Borralho com quem temos tido o prazer de colaborar algumas vezes. As condicionantes várias que continuamente nos desviam de caminhos que ainda nem escrevemos obrigam a uma constante recomeçação. Esperemos ter o vírus da criação como habitante permanente nos nossos corpos para que o desassossego de estar sempre no princípio se recorde sempre também da mágica selvajaria que lhe é contínua.
Este ano o Pedras d’Água apresenta trabalhos de Carolina Höfs e Flávia Diab, Bernardo Chatillon, André Castro, Lawrence Abu Hamdan, Luz da Camara e Rui Chaves, Ainhoa Vidal, ?lex, IR, Mariana Lemos, Bruno Cabral e Luciana Fina.
O Pedras d’Água é financiado pela Câmara Municipal de Lisboa
Calendário:
3 de Julho
Das 10h às 18h - Largo de S. Domingos - Instalação Pau de Arara de Carolina Höfs e
Flávia Diab
Das 11h às 16h - A partir do Largo de S. Nicolau - Quiosques de Bernardo Chatillon
3, 4 e 5 de Julho
Das 9h às 12h e das 14h às 18h nos Sanitários Públicos da Sé (junto à Sé Catedral)
Instalação Sonora "Subterrâneos de Lisboa" de André Castro
Das 10h às 15h no Mercado da Ribeira (Cais do Sodré)
Marching Instalação de Lawrence Abu Hamdan
Das 11h às 13h no Mercado da Ribeira (Cais do Sodré)
Marching Workshop com Lawrence Abu Hamdan
Das 19h às 23h30 Rua S. João da Praça nº (junto à Sé Catedral de Lisboa)
Performance/Instalação "ao fim, ao cabo e ao resto..." de Luz da Camara e Rui Chaves
4 e 5 de Julho
Às 21h - Armazém Hospital Miguel Bombarda
Espectáculo de Dança "ao cruzar as árvores" de Ainhoa Vidal
Às 22h15m - Armazém Hospital Miguel Bombarda
Vídeo "nomad roots" de ?lex
5 de Julho
Das 18h às 21h a confirmar - ver em www.c-e-m.org ou contactar 21 887 1917
Documentário e debate "Do Corpo à Palavra" de IR, Mariana Lemos, Bruno Cabral e Luciana Fina.
1.7.07
Agora Ivone e Aurora vão ter que se mudar para outro lugar. Um lar. O velho edifício da rua nova do Almada vai ser reconstruído.
Às duas da tarde Aurora está mais rezingona e agressiva. “Tem muitos ciúmes da irmã” diz a assistente social enquanto colher após colher, numa cadência alucinante, vai dando o almoço à mais velha. “Tenho muitas acamadas, esta senhora tem muita força mas já passou do limite, não aguenta um lar…”
Como estamos nós com os nossos velhotes? Com os diferentes? Com os não úteis? Úteis em quê?
Como é possível tanta falta de espaço para aqueles que já correram, amaram, choraram como nós? Quantos não terão ficado esquecidos nos últimos andares de casas sem elevador?
Que ideia existe então de família?
Que tempo é este que nos mente assim sobre o nosso próprio caminho?
Que engano vivemos que não nos permite ver quem somos?
Vêem-me à lembrança arvores e mais arvores e mais arvores. Vejo vento e vejo verde e vejo água, não sei que mais poderei ver que permita encontrar a malha que une a costureira acamada com aquela que queria ter sido professora, comigo e com o mundo.
Porque nos teremos cruzado agora?
Que lugar é o meu nesta trama?
Não está mesmo nada claro!
Ontem à noite estive a conversar com a minha irmã Filipa sobre uma bailarina que se suicidou, mãe de um filho pequenino. Onde estava o desespero? Onde estava a limpidez? Onde está? Onde encontrar a capacidade e a coragem de criar uma estrutura de ser?
O meu filho André deu-me um pano com arvores. Diz-me que tingiu o tecido ao acaso com tinta azul, depois torceu, olhou o resultado e achou que o verde ia ficar bem: “Dou-te a floresta Amazónica”
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Enquanto a água se escoa.
Os dedos retorcidos como ramos desembrulham-se lentamente nas minhas mãos. Já é morte mas ainda é vida, quando se revela a mudança? Que sopro é esse? E a criação?
Porque teima em surgir, crescer, estar?
Quanto de beleza nas sombras, na voz, nas correrias do vento?
Entre as arvores passam fios de luz.
O jardim está manchado de cores. Enquanto o Sol viaja, viaja a Terra.
O peito desaperta-se ao sabor do verde, ao sabor da fala das crianças e dos pássaros. O começo dos namoros, a pele cintilante, as folhas cintilantes. Toca o sino da Basílica da Estrela. Lisboa dentro de Lisboa.
Por cima do corpo de Ivone, tão perto que ela mal caberia sentada na cama, estica-se o tecto de madeira esbranquiçada que lhe guarda uma amiga invisível.
“Ela já não está cá!” diz a Aurora arrastando os chinelos agarrada às paredes corredor fora. Está onde então?
Lembro-me bem da translucidez da minha avó ou da minha tia enquanto, o corpo de evaporava.
Lá me chega o avô Mário, o poeta, como um bambu curvado. Os olhos enchem-se de lágrimas. O amor é sempre vivo.
Parece-me agora que cada um de nós vive num novelo mal enrolado, no interior de um enxame de partículas que se dissipam ou congregam à mercê da nossa capacidade de acreditar que os olhos se podem esticar para lá desse cerco. Ao sabor da mobilidade de estar vivo.
Agora voltam as arvores, tão vivas e tão enraizadas num lugar. Desloca-se o pólen das flores, transitam a água e o ar, viajam Aurora e Ivone no meu peito como um abraço.
O que é a liberdade? Entre ir e ficar, entre a morte e a vida, onde está Ivone?
Enquanto a água passa.
Vemo-nos no Festival Pedras d'Água sofia neuparth
14.5.07
Ó Beata do meu vício
Que destes lábios te apartas
Morrer junto a mais beatas
Seja este o sacrifício
Não te espalhes, qual semente
Pelo chão desta cidade
Pois faz dano à liberdade
E não cresce árvore valente
Não te escondas dentro-terra
Pela força dos meus dedos
E neste cinzeiro berra
Mais um cigarro se finda
Durante esta introspecção
Ao lixo beata linda!
Margarida Agostinho
20.6.06
Vejo agora a baixa habitada como uma via próxima e urgente mas não consigo entender porque só oiço falar dos idosos e das lojas sem clientela quando conheço cada vez mais famílias novas e gente nova que mora por aqui...parece-me que a insistência no"fado":isto está tudo pela hora da morte, a baixa ja não é o que era...e por aí fora é concerteza incontornável pois as nossas células têm essa cor impressa muito profundamente...mas é urgente acarinhar todos os movimentos que desinstalam essa "destino fatídico" e dar tempo para que cresçam com confiança os "sims" que andam por aí!!!!hoje o senhor do Kioske aqui da rua de S. Nicolau perguntou-me o que eu achava de se fazer ali na rua um chá amanhã às 3 da tarde para verem o jogo Portugal/México: Nem me anima muito o futebol e acho um exagero este excesso de patriotismo completamente focado na bola, mas o facto das nossas intervenções na rua (piqueniques, bailes, chás...) terem entrado na lista de possibilidades das pessoas que aqui vivem ou trabalham é MARAVILHOSO!!!! é este o eco que preciso para poder terminar o puzzle da tal "visão". Então viva o Kioske e o futebol e vamos a mais um cházinho rua fora! até já sofia neuparth
8.6.06
Local: Vila do Conde, junto ao mar
Data: 15 Maio 2006
Depois de ler (quase) todas as palavras que a Ainhoa me trouxe aquando da nossa tão desejada Maratona de Dança 2006, comecei a sentir um movimento novo, como que a crescer, a ter forma e a necessitar de se concretizar neste (meu) corpo.
Mas ao transformar em ideias e imagens as palavras que iam ecoando na minha cabeça, percebi que o tempo não partilhado, o corpo não presente, foi, para mim, a própria invisibilidade. Como conceito, eu, que não estive, não performei, não limpei, não ouvi Histórias de lugares, não reverdejei a Baixa, não fiz Picnics, não me mexi com idosos, não vi os Rostos da Baixa, não me surpreendi com o Audio-Tour, não participei em laboratórios e não perguntei Onde? Porquê? Para quê? Como? As necessidade?, fui a própria invisibilidade. Que existe, porque há quem lhe dê tempo e razão. A orgânica própria do “Pedras D´Água” sustende a necessidade de criação das ideias, protótipo, conceito de invisibilidade, e consequente existência real/física/temporal.
Outro conceito ecoou quase ao mesmo tempo das palavras que a Ainhoa me trouxe aquando da nossa tão desejada Maratona de Dança 2006: Objecto Fractal, vulgarmente designado por Fractal. Porque se Fractal pode ser, de um modo muito simplificado, a parte que representa o todo, isto é, se uma parte do todo for ampliada até ao “tamanho” desse todo, essa parte ampliada e o próprio todo não manifestam diferenças significativas, então a Invisibilidade pode perfeitamente ter sido o tempo que o todo teve sem ter conhecimento que a sua parte podia coincidir consigo próprio.
A partir daqui …. o medo! Mas o sentimento de um movimento novo, como que a crescer, a ter forma e a necessitar de se concretizar neste (meu) corpo, já não é possível ignorar. E assim a pesquisa sobre o conceito de fractal, o tentar perceber se posso, eventualmente, “representar o todo”.
Vou (re)ler “Objectos Fractais”, de Benoit Mandelbrot, das Edições Gradiva, e já digo alguma coisa. Até já!
Pedro Carvalho
18.5.06
Há qualquer coisa muito forte num dia que se pepara para começar. A azáfama das andorinhas cruza-se com os últimos cantares dos galos. Mulheres saem por portas procurando não fazer barulho com os pés. Vê-se a cumplicidade que têm com o princípio do dia. Já se conhecem de muitas caminhadas.
A confusão de casas vista daqui tem sobre si espalhada uma poalha brilhante de luz. Lembra-me um palco à minha espera. Vejo os sítios que fazem parte do meu dia a dia lá em baixo... parece que ainda esfregam os olhos a prepararem-se para este encontro... Ou serei eu?
Outras pessoas vão chegando, sem que tivéssemos combinado. Vêm sozinhas no mesmo ritual de silênciao. Que papéis representarão hoje?
Gostava de realmente não saber o meu... ou de poder estar mais vezes junto a este lugar de mim (de ti) atrás de qualquer papel, quando só existe o potencial de que existam.
Gostava de te vir visitar mais vezes Lisboa, apesar de a minha pele estalar a esta hora.
(miradouro da graça/ 17 de maio de 2006)

