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Tânia Carvalho ainda andava na escola primária
quando inventou a Amélia. É ela a protagonista
do solo Um Privilégio Característico,
a mais recente criação de Tânia
Carvalho. Estreou em Junho no Teatro Taborda em Lisboa,
e é agora apresentada no Porto (no pequeno auditório
do Rivoli) nos dias 19, 20 e 21 de Setembro. Não
é um drama, mas antes uma comédia feita
com muita ironia. O exagero dos gestos e das expressões
de Amélia, não fazem mais do que revelar-nos
uma mulher muito bela. falando desse e de outros sonhos,
Tânia Carvalho faz-nos revelações
de uma jovem coreógrafa portuguesa.
Tânia, quem é então a Amélia?
É uma personagem que eu comecei a criar através
de desenhos quando era pequena. Isto começou
quando eu andava na escola primária (risos).
É verdade, ela apareceu quando eu imaginava coisas
e queria chamar-me Amélia, etc.. Desde pequena
que concebo esta personagem como sendo velha.
Comecei então com banda desenhada. E decidi fazer
esta coreografia agora, porque é o meu primeiro
grande solo. É uma personagem que está
constantemente a sonhar e a acordar.
Esta Amélia é uma mulher muito retraída,
triste e é como se vivesse de um glamour
que já não existe -pelo menos as mulheres
parecem já não querer ter essa aurea de
pureza.
Sim, ela é muito triste e vive com esses
sonhos, de querer ser uma diva reconhecida internacionalmente
e ter limusinas à porta de casa e coisas desse
género (risos). Como não conseguiu, começou
a sonhar.
Mas esta Amélia tem data de nascimento e bilhete
de identidade?
Não, esses dados mais concretos não tem.
E como é que tu cresces com essa Amélia
aí dentro, que é uma mulher já
adulta, que supostamente já perdeu alguma da
felicidade e da ingenuidade que se tem quando ainda
se acredita nos sonhos?
Eu também já não acredito. Por
isso é que esta peça acaba assim: não
está ninguém, ela vai-se embora e o espectáculo
foi feito para o vazio. Mas, conforme eu fui crescendo,
fui percebendo o que esta personagem pode dizer às
pessoas. Por exemplo, a importância na nossa vida
diária do olhar dos outros. Neste trabalho quero
jogar com essa ideia que os outros têm de nós.
Poderá pensar-se que esta é uma coreografia
muito triste e depressiva, mas não. Há
muita comédia.
Sim, porque eu também não gosto de coisas
muito pesadas (risos). Se esta personagem não
fizesse rir, todo este trabalho acabava por cair no
rdículo. É no exagero dos gestos e das
expressões da personagem que aparece o riso.
Estas histórias coreográficas da Amélia
vão ter continuação?
Ainda não sei. Talvez sim. A verdade é
que eu já meti uma parte da Amélia em
dois pequenos trabalhos que fiz anteriormente, ainda
que este seja o verdadeiro trabalho sobre esta personagem.
Mas é bem provável que sim.
Tu começaste por ir para a Escola Superior de
Dança, mas só estiveste lá um ano.
Porquê?
Porque me parece que, naquela altura, faltava tudo naquela
escola. Tínhamos aulas técnicas e não
era só isso que me interessava; não tínhamos
liberdade de criação praticamente nenhuma
e eu sentia-me completamente presa. Desde os cinco anos
que já fazia aulas de dança -fiz dança
clássica e dança contemporânea com
o Balleteatro. Então cheguei ali e sentia que
estava a andar para trás.
Optei pelo Fórum Dança. Lá fazíamos
trabalho de intérpretes e começámos
também a fazer os nossos exercícios de
criação - que eu já tinha feito
com o Balleteatro. E mesmo antes de sair do Fórum
Dança, pedi o meu primeiro subsídio para
fazer uma peça. Praticamente ao mesmo tempo,
comecei a trabalhar com outros coreógrafos. Mas
parece-me que esse trabalho com eles não me influenciou
muito. Eu fui sempre criando sozinha o meu método
de trabalho.
E não tens problemas nenhuns em chamar a estes
teus trabalhos dança contemporânea, pois
não?
Não. Temos que chamar dança àquilo
que fazemos, senão as pessoas pensam que dança
é só balé. Devemos manter a nossa
posição. Claro que há outras áreas
envolvidas na dança, mas em todas as artes é
assim.
Tu fazes parte da geração dos mais
novos criadores portugueses. É frequente os membros
dessa nova geração trocarem ideias, ou
trabalham de forma mais isolada e individual?
Nós somos bastante unidos. Aliás, eu faço
parte da Bomba Suicida - que congrega cinco coreógrafos.
Nós falamos sempre uns com os outros e damos
as nossas opiniões sem problemas. Trabalho com
o Filipe Viegas, a Mónica Coteriano, o Tiago
Guedes, a Sónia Baptista... Depois há
outras pessoas que agora estão um pouco mais
afastadas, como o Nuno Branco e o Paulo Brás...
Somos uns oito. Temos um escritório no Bairro
Alto, fazemos a nossa produção, organizamos
festas, os sunday shows, não sei se já
ouviste falar (risos)... Mas o Filipe Viegas é
que é o presidente; foi ele que teve a ideia
de criar este colectivo e é o que trabalha mais
-está até um bocado cansado (risos), porque
o dinheiro é pouco. Este foi o primeiro ano que
pedimos um subsídio e temos feito tanta coisa
ao longo destes quatro anos, mas só nos deram
dinheiro para pagar a renda. Nem sequer temos dinheiro
para contratar alguém a tempo inteiro para o
escritório. Mas apesar de tudo estamos aqui.
É por aí que se tem de ir, caso se
queira fazer alguma coisa em termos de dança
contemporânea em Portugal?
Não tem que ser assim. Se não arranjas
ninguém por quem sintas alguma afinidade mais
vale estares sozinha, acho eu. Mas se de facto encontrares
alguém que te apoie, é bom.
E imaginas-te, num futuro a médio e longo
prazo, como coreógrafa?
Sim. Até ter algum desgosto (risos).
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