CEM REFLEXÕES Uma Mulher de Sonhos Reflexões


Lugar transparente
e sumarento onde
se registam
pensamentos,
preocupações, opiniões.

Cláudia Almeida  Agosto 2002



Tânia Carvalho ainda andava na escola primária quando inventou a Amélia. É ela a protagonista do solo Um Privilégio Característico, a mais recente criação de Tânia Carvalho. Estreou em Junho no Teatro Taborda em Lisboa, e é agora apresentada no Porto (no pequeno auditório do Rivoli) nos dias 19, 20 e 21 de Setembro. Não é um drama, mas antes uma comédia feita com muita ironia. O exagero dos gestos e das expressões de Amélia, não fazem mais do que revelar-nos uma mulher muito bela. falando desse e de outros sonhos, Tânia Carvalho faz-nos revelações de uma jovem coreógrafa portuguesa.

Tânia, quem é então a Amélia?

É uma personagem que eu comecei a criar através de desenhos quando era pequena. Isto começou quando eu andava na escola primária (risos). É verdade, ela apareceu quando eu imaginava coisas e queria chamar-me Amélia, etc.. Desde pequena que concebo esta personagem como sendo velha.
Comecei então com banda desenhada. E decidi fazer esta coreografia agora, porque é o meu primeiro grande solo. É uma personagem que está constantemente a sonhar e a acordar.

Esta Amélia é uma mulher muito retraída, triste e é como se vivesse de um glamour que já não existe -pelo menos as mulheres parecem já não querer ter essa aurea de pureza.

Sim, ela é muito triste e vive com esses sonhos, de querer ser uma diva reconhecida internacionalmente e ter limusinas à porta de casa e coisas desse género (risos). Como não conseguiu, começou a sonhar.

Mas esta Amélia tem data de nascimento e bilhete de identidade?

Não, esses dados mais concretos não tem.

E como é que tu cresces com essa Amélia aí dentro, que é uma mulher já adulta, que supostamente já perdeu alguma da felicidade e da ingenuidade que se tem quando ainda se acredita nos sonhos?

Eu também já não acredito. Por isso é que esta peça acaba assim: não está ninguém, ela vai-se embora e o espectáculo foi feito para o vazio. Mas, conforme eu fui crescendo, fui percebendo o que esta personagem pode dizer às pessoas. Por exemplo, a importância na nossa vida diária do olhar dos outros. Neste trabalho quero jogar com essa ideia que os outros têm de nós.

Poderá pensar-se que esta é uma coreografia muito triste e depressiva, mas não. Há muita comédia.

Sim, porque eu também não gosto de coisas muito pesadas (risos). Se esta personagem não fizesse rir, todo este trabalho acabava por cair no rdículo. É no exagero dos gestos e das expressões da personagem que aparece o riso.

Estas histórias coreográficas da Amélia vão ter continuação?

Ainda não sei. Talvez sim. A verdade é que eu já meti uma parte da Amélia em dois pequenos trabalhos que fiz anteriormente, ainda que este seja o verdadeiro trabalho sobre esta personagem. Mas é bem provável que sim.

Tu começaste por ir para a Escola Superior de Dança, mas só estiveste lá um ano. Porquê?


Porque me parece que, naquela altura, faltava tudo naquela escola. Tínhamos aulas técnicas e não era só isso que me interessava; não tínhamos liberdade de criação praticamente nenhuma e eu sentia-me completamente presa. Desde os cinco anos que já fazia aulas de dança -fiz dança clássica e dança contemporânea com o Balleteatro. Então cheguei ali e sentia que estava a andar para trás.

Optei pelo Fórum Dança. Lá fazíamos trabalho de intérpretes e começámos também a fazer os nossos exercícios de criação - que eu já tinha feito com o Balleteatro. E mesmo antes de sair do Fórum Dança, pedi o meu primeiro subsídio para fazer uma peça. Praticamente ao mesmo tempo, comecei a trabalhar com outros coreógrafos. Mas parece-me que esse trabalho com eles não me influenciou muito. Eu fui sempre criando sozinha o meu método de trabalho.

E não tens problemas nenhuns em chamar a estes teus trabalhos dança contemporânea, pois não?


Não. Temos que chamar dança àquilo que fazemos, senão as pessoas pensam que dança é só balé. Devemos manter a nossa posição. Claro que há outras áreas envolvidas na dança, mas em todas as artes é assim.

Tu fazes parte da geração dos mais novos criadores portugueses. É frequente os membros dessa nova geração trocarem ideias, ou trabalham de forma mais isolada e individual?

Nós somos bastante unidos. Aliás, eu faço parte da Bomba Suicida - que congrega cinco coreógrafos. Nós falamos sempre uns com os outros e damos as nossas opiniões sem problemas. Trabalho com o Filipe Viegas, a Mónica Coteriano, o Tiago Guedes, a Sónia Baptista... Depois há outras pessoas que agora estão um pouco mais afastadas, como o Nuno Branco e o Paulo Brás... Somos uns oito. Temos um escritório no Bairro Alto, fazemos a nossa produção, organizamos festas, os sunday shows, não sei se já ouviste falar (risos)... Mas o Filipe Viegas é que é o presidente; foi ele que teve a ideia de criar este colectivo e é o que trabalha mais -está até um bocado cansado (risos), porque o dinheiro é pouco. Este foi o primeiro ano que pedimos um subsídio e temos feito tanta coisa ao longo destes quatro anos, mas só nos deram dinheiro para pagar a renda. Nem sequer temos dinheiro para contratar alguém a tempo inteiro para o escritório. Mas apesar de tudo estamos aqui.

É por aí que se tem de ir, caso se queira fazer alguma coisa em termos de dança contemporânea em Portugal?

Não tem que ser assim. Se não arranjas ninguém por quem sintas alguma afinidade mais vale estares sozinha, acho eu. Mas se de facto encontrares alguém que te apoie, é bom.

E imaginas-te, num futuro a médio e longo prazo, como coreógrafa?

Sim. Até ter algum desgosto (risos).




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