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RESGATE DO CORPO II
Carlos Neto tem 52 anos e há quase trinta
que se dedica a zelar pelo direito das crianças
portuguesas a um tempo e espaço para
brincar com qualidade. Prosseguimos a conversa
com este professor de educação
física que alerta os pais: os mais novos
têm de brincar fora de casa, subir às
árvores e esmurrar os joelhos.
De que brinquedos é que não
abdica, apesar das grandes inovações
que as novas tecnologias propõem às
crianças?
De facto, a indústria dos brinquedos
é uma das maiores em termos mundiais,
a par da indústria alimentar e de vestuário
para crianças. Mas o problema não
está nas qualidades de estimulação
desses brinquedos, mas no tempo e no espaço
que é dado à criança para
ela poder socorrer-se desses objectos para evoluir
e crescer. Eu não prescindo dos chamados
brinquedos de movimento: a lista mínima
(que poderia ser metida nas caixas de correio
de todos os cidadãos) devia incluir uma
corda de saltar, uma bola, uns patins, um papagaio
de papel.
É cómodo que as crianças
possam chegar a casa, sentar-se no sofá
e ver um vídeo ou ter à sua frente
um conjunto de brinquedos que possam exigir
pouca mobilidade –porque muita mobilidade dentro
ou fora de casa implica dores de cabeça
para os pais. Mas eles têm de reaprender
a educar os seus filhos no sentido daquilo que
é a vivência da sua idade. E, de
um ponto de vista saudável, isso implica
uma criança activa, impertinente, muitas
vezes suja, que se aleija.
«há crianças que
chegam aos 5, 6 anos e não sabem pontapear
uma bola»
OS arranhões e as quedas fazem
parte do processo de crescimento.
Essa é a forma natural de uma criança
crescer, mas hoje essa ideia morreu; temos uma
criança imóvel, sedentária
e que dá poucas dores de cabeça
aos pais. Queria alertar a sociedade portuguesa
em todos os seus sectores para olharmos para
a infância e para o sentido activo do
corpo em aprendizagem: aprender com o corpo
todo. Eu sou inteligente pela periferia do meu
corpo; temos de perceber que não temos
uma zona nobre que toma decisões e que
o resto é apenas um conjunto de periféricos
articuláveis.
Aprendizagens como a locomoção,
a postura, a dinâmica gestual, são
fundamentais. Olhando para o comportamento postural
das nossas crianças, observamos que estão
desenquadradas, mal colocadas. Uma criança
a correr corre mal. Há hoje crianças
que chegam aos 6 anos de idade e não
sabem saltar ao pé coxinho, saltar à
corda, não sabem trepar a uma árvore
(sobem mas depois não descem!), há
crianças que chegam aos 5, 6 anos e não
sabem pontapear uma bola. Portanto, há
uma iletracia motora e lúdica que é
preciso combater. Porque tudo o que consideramos
nobre na sociedade não se
faz com um corpo desconhecido.
A última mensagem que gostava de deixar
é que, quando falo em actividade física,
lúdica, desportiva, faço-o sempre
numa ligação a uma educação
artística. Nós não podemos
ser apenas espectadores à volta da bancada,
temos de ser actores. É inevitável
que neste século XXI preparemos os cidadãos
para serem capazes de viver o seu tempo livre
de uma forma saudável. Eu tenho algum
receio que hoje o cidadão comum, quando
tem algum tempo para não fazer nada,
ele não sabe o que há-de fazer.
Fica em casa a ver televisão.
Exactamente. Mas é preciso demonstrar
que as pessoas preocupadas com as questões
do desporto e da actividade física e
lazer não são uma espécie
de enfermeiros ou pessoal auxiliar. Nós
sabemos o que queremos fazer, é só
uma questão de nos darem a palavra e
a acção.
A qualidade de vida passa, antes de tudo, por
um olhar para o nosso próprio corpo.
Isso ensina-se e é possível demonstrar
que tem efeitos e consequências.
O que o motivou a entrar neste universo
das crianças?
Primeiro, uma infância muito feliz que
tive a oportunidade de viver, numa cidade que
considero a mais bonita deste país que
é Leiria, alagada por um rio fantástico
que é o Liz, com um castelo... Eu vivi
a minha infância dentro de uma quinta,
no centro da cidade, que hoje está completamente
urbanizada.
Subia às árvores, apanhava
figos, cerejas...
Subia às arvores, ia para o rio, trepava
às paredes do castelo, roubava pêssegos...
tínhamos as maiores aventuras dentro
daquela cidade. A nossa geração
dos anos 50, 60 viveu de facto momentos de grande
estimulação, com alguma pobreza
mas com uma grande riqueza do ponto de vista
da liberdade de acção. Isso levou-me
depois a ter uma formação desportiva
ao nível do futebol. Entrei no Instituto
Nacional de Educação Física
em 1968, tirei o curso de instrutor e depois
de professor. Quando acabei o curso deu-se o
25 de Abril e tive a oportunidade de fazer o
primeiro estágio da instituição
com crianças. Sempre tive grandes mestres
que me ensinaram as virtualidades da infância
e, acima de tudo, do jogo e da motricidade nessas
idades. Nós não temos uma sociedade
que possa respeitar aquilo que são os
princípios consagrados ao jogo, à
recriação, aos tempos livres das
nossas crianças. Sendo um país
integrado na Comunidade Europeia, Portugal não
está a respeitar esses direitos.
«os portugueses estão
à beira de um ataque de nervos»
Já alguma instituição
lhe disse que haveria eventualmente coisas mais
importantes para fazer primeiro?
Não. O que eu penso é que nem
há sensibilidade para este tipo de coisas.
Nós somos um punhado de pessoas a tentar
lutar por esta causa.
Tive a oportunidade de participar na criação
da primeira legislação portuguesa
sobre espaços de jogo ao ar livre, depois
daquele inacreditável acontecimento do
Aquaparque. Felizmente que em 1997 sai a primeira
legislação sobre espaços
de jogo para crianças mas, apesar da
legislação estar feita e do engenheiro
Sócrates ter dito, na altura, que era
talvez a melhor legislação que
existia na Europa sobre o tema, de facto ela
é perversa; porque depois não
se deu condições às autarquias,
não se fez a formação de
especialistas para a avaliação
e inspecção dos espaços,
não houve preocupações
de formação de quadros e não
houve outra saída senão fechar
a maior parte dos espaços de jogo existentes.
Portanto, em vez de se promover o direito ao
jogo para a criança em espaços
abertos, diminuíram as oportunidades
para as crianças usufruírem desses
locais públicos.
É lamentável que neste país
esteja tudo demasiado solto e isolado. Parece
que ninguém se conhece, quando temos
cá tudo: uma produção científica
muito elevada na universidade, pessoas capazes
de fazer e operacionalizar projectos... Mas
há uma política egocêntrica,
de completo autismo, na criação
de equipas multidisciplinares para a resolução
destes problemas.
Temos de fazer uma ruptura definitiva para sermos
menos casaco e gravata, sermos mais humildes,
arregaçarmos as mangas, irmos para o
terreno, não haver complexos de inferioridade
ou superioridade, fazermos uma melhor ligação
entre a Universidade e os serviços, quer
do Estado quer privados, de modo a que todos
juntos consigamos criar um território
e, dentro desse território, uma qualidade
de vida dos cidadãos independentemente
da classe social, da etnia, etc., porque este
país vai ser cada vez mais multicultural.
Por isso temos que nos preparar rapidamente
para, acima de tudo, acabarmos com este verdadeiro
inferno de rapidez na maneira de conseguirmos
resolver o nosso dia-a-dia. Há hoje pessoas
que vão para o ginásio fazer actividade
física cansadas: é pior a emenda
do que o soneto, porque saem de lá ainda
mais cansadas. O problema não está
em fazer um determinado tipo de actividade física,
mas em encontrar um equilíbrio e prazer
de vida. Acho que os portugueses estão
à beira de um ataque de nervos, no sentido
de perderem o conceito do que é viver
com prazer.
« A falta de literacia dos portugueses
é uma consequência natural de uma
má formação corporal »
Parece-lhe que, actualmente, é
um acto de coragem ter um filho?
Acho que é um acto de grande coragem,
tendo em conta a situação em que
vivemos. Não quero ser muito pessimista
–sou optimista por natureza-, mas parece-me
que deveriam ser eleitos como objectivos fundamentais
das políticas governamentais a vida das
famílias, a educação dos
filhos, a oportunidade de socialização
dessas crianças e uma melhoria dos espaços
e do território, com uma maior produção
de políticas culturais e artísticas
porque, de facto, o cidadão português,
por mais oportunidades que tenha de acesso a
eventos de natureza artística e cultural,
não tem formação nem condições
para tomar por si próprio decisões
para essa participação. Parece-me
que essa atitude tem de começar ao nível
da infância, nas escolas, na família.
As pessoas, até as mais bem colocadas
em termos políticos e sociais, parece
que não são capazes de olhar para
si próprias e ver o que se está
a passar na gestão do tempo, do espaço
e das actividades que têm como adultos
e que dão aos seus próprios filhos.
Quero dizer-lhe uma coisa, que pode parecer
uma tontice da minha parte: tenho visto nos
últimos dois, três anos uma discussão
enormíssima sobre o tema dos acidentes
rodoviários em Portugal. Há inúmeras
razões para justificar tantos acidentes
automóveis, mas por melhores auto-estradas
que tenhamos, melhor sinalização
ou mais controlo do nível de álcool,
os acidentes vão continuar. Porque está
em causa, do meu ponto de vista, uma má
formação da cultura física
dos portugueses. O corpo que não é
activo não tem uma noção
das suas capacidades preceptivas, sensoriais
e motoras; quando um indivíduo conduz
um veículo, que é um prolongamento
do seu próprio corpo, as más decisões
acontecem, porque ele não conhece o corpo,
não tem estimulação. A
falta de literacia dos portugueses é
uma consequência natural de uma má
formação corporal, é óbvio!
Essa questão de não se saber matemática,
português, de não se saber ler,
escrever e contar é um problema primeiro
da falta de conhecimento do corpo.
Eu trabalho com crianças há 25
anos. Sou professor universitário, mas
todas as semanas tenho as minhas crianças,
porque essa é a minha fonte de aprendizagem.
O que eu vejo todos os anos, à medida
que elas me chegam, é que são
mais pobres do ponto de vista de um repertório
motor. São cada vez mais descoordenadas,
com menos auto-estima, com um esquema corporal
mais destrambelhado, mais hiperactivas. Não
têm um corpo solto, nem disponível,
nem flexível, não têm uma
formação global, integral do ponto
de vista corporal, são crianças
muito formatadas que não têm os
joelhos esfolados. Não estou a culpar
os pais nem ninguém; estou a dizer que
a sociedade não viu este problema e isto
é gravíssimo para o futuro. Porque
vamos ter cidadãos inactivos...
Inaptos?
Sim, do ponto de vista motor (e podem ser génios
do ponto de vista intelectual). Não podemos
conscientemente criar condições
para uma sociedade sedentária. Porque
o povo português tem uma longa história
de actividade, capacidade coordenativa, cultura
manual e física no sentido pleno das
palavras. E o que eu vejo hoje é uma
padronização preocupante dessa
figura do corpo português em várias
idades. A cultura física dos portugueses
devia continuar esse sentido histórico,
independentemente das enormes mudanças
sociais que temos tido, nessa disponibilidade
para ter um corpo expressivo. E isso começa
na infância.
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