CEM REFLEXÕES Entrevista com Carlos Neto - Parte II Reflexões


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Cláudia Almeida  Julho 2003



RESGATE DO CORPO II

Carlos Neto tem 52 anos e há quase trinta que se dedica a zelar pelo direito das crianças portuguesas a um tempo e espaço para brincar com qualidade. Prosseguimos a conversa com este professor de educação física que alerta os pais: os mais novos têm de brincar fora de casa, subir às árvores e esmurrar os joelhos.

De que brinquedos é que não abdica, apesar das grandes inovações que as novas tecnologias propõem às crianças?

De facto, a indústria dos brinquedos é uma das maiores em termos mundiais, a par da indústria alimentar e de vestuário para crianças. Mas o problema não está nas qualidades de estimulação desses brinquedos, mas no tempo e no espaço que é dado à criança para ela poder socorrer-se desses objectos para evoluir e crescer. Eu não prescindo dos chamados brinquedos de movimento: a lista mínima (que poderia ser metida nas caixas de correio de todos os cidadãos) devia incluir uma corda de saltar, uma bola, uns patins, um papagaio de papel.
É cómodo que as crianças possam chegar a casa, sentar-se no sofá e ver um vídeo ou ter à sua frente um conjunto de brinquedos que possam exigir pouca mobilidade –porque muita mobilidade dentro ou fora de casa implica dores de cabeça para os pais. Mas eles têm de reaprender a educar os seus filhos no sentido daquilo que é a vivência da sua idade. E, de um ponto de vista saudável, isso implica uma criança activa, impertinente, muitas vezes suja, que se aleija.

«há crianças que chegam aos 5, 6 anos e não sabem pontapear uma bola»

OS arranhões e as quedas fazem parte do processo de crescimento.
Essa é a forma natural de uma criança crescer, mas hoje essa ideia morreu; temos uma criança imóvel, sedentária e que dá poucas dores de cabeça aos pais. Queria alertar a sociedade portuguesa em todos os seus sectores para olharmos para a infância e para o sentido activo do corpo em aprendizagem: aprender com o corpo todo. Eu sou inteligente pela periferia do meu corpo; temos de perceber que não temos uma zona nobre que toma decisões e que o resto é apenas um conjunto de periféricos articuláveis.
Aprendizagens como a locomoção, a postura, a dinâmica gestual, são fundamentais. Olhando para o comportamento postural das nossas crianças, observamos que estão desenquadradas, mal colocadas. Uma criança a correr corre mal. Há hoje crianças que chegam aos 6 anos de idade e não sabem saltar ao pé coxinho, saltar à corda, não sabem trepar a uma árvore (sobem mas depois não descem!), há crianças que chegam aos 5, 6 anos e não sabem pontapear uma bola. Portanto, há uma iletracia motora e lúdica que é preciso combater. Porque tudo o que consideramos nobre na sociedade não se
faz com um corpo desconhecido.
A última mensagem que gostava de deixar é que, quando falo em actividade física, lúdica, desportiva, faço-o sempre numa ligação a uma educação artística. Nós não podemos ser apenas espectadores à volta da bancada, temos de ser actores. É inevitável que neste século XXI preparemos os cidadãos para serem capazes de viver o seu tempo livre de uma forma saudável. Eu tenho algum receio que hoje o cidadão comum, quando tem algum tempo para não fazer nada, ele não sabe o que há-de fazer.

Fica em casa a ver televisão.
Exactamente. Mas é preciso demonstrar que as pessoas preocupadas com as questões do desporto e da actividade física e lazer não são uma espécie de enfermeiros ou pessoal auxiliar. Nós sabemos o que queremos fazer, é só uma questão de nos darem a palavra e a acção.
A qualidade de vida passa, antes de tudo, por um olhar para o nosso próprio corpo. Isso ensina-se e é possível demonstrar que tem efeitos e consequências.

O que o motivou a entrar neste universo das crianças?
Primeiro, uma infância muito feliz que tive a oportunidade de viver, numa cidade que considero a mais bonita deste país que é Leiria, alagada por um rio fantástico que é o Liz, com um castelo... Eu vivi a minha infância dentro de uma quinta, no centro da cidade, que hoje está completamente urbanizada.

Subia às árvores, apanhava figos, cerejas...
Subia às arvores, ia para o rio, trepava às paredes do castelo, roubava pêssegos... tínhamos as maiores aventuras dentro daquela cidade. A nossa geração dos anos 50, 60 viveu de facto momentos de grande estimulação, com alguma pobreza mas com uma grande riqueza do ponto de vista da liberdade de acção. Isso levou-me depois a ter uma formação desportiva ao nível do futebol. Entrei no Instituto Nacional de Educação Física em 1968, tirei o curso de instrutor e depois de professor. Quando acabei o curso deu-se o 25 de Abril e tive a oportunidade de fazer o primeiro estágio da instituição com crianças. Sempre tive grandes mestres que me ensinaram as virtualidades da infância e, acima de tudo, do jogo e da motricidade nessas idades. Nós não temos uma sociedade que possa respeitar aquilo que são os princípios consagrados ao jogo, à recriação, aos tempos livres das nossas crianças. Sendo um país integrado na Comunidade Europeia, Portugal não está a respeitar esses direitos.

«os portugueses estão à beira de um ataque de nervos»

Já alguma instituição lhe disse que haveria eventualmente coisas mais importantes para fazer primeiro?
Não. O que eu penso é que nem há sensibilidade para este tipo de coisas. Nós somos um punhado de pessoas a tentar lutar por esta causa.
Tive a oportunidade de participar na criação da primeira legislação portuguesa sobre espaços de jogo ao ar livre, depois daquele inacreditável acontecimento do Aquaparque. Felizmente que em 1997 sai a primeira legislação sobre espaços de jogo para crianças mas, apesar da legislação estar feita e do engenheiro Sócrates ter dito, na altura, que era talvez a melhor legislação que existia na Europa sobre o tema, de facto ela é perversa; porque depois não se deu condições às autarquias, não se fez a formação de especialistas para a avaliação e inspecção dos espaços, não houve preocupações de formação de quadros e não houve outra saída senão fechar a maior parte dos espaços de jogo existentes. Portanto, em vez de se promover o direito ao jogo para a criança em espaços abertos, diminuíram as oportunidades para as crianças usufruírem desses locais públicos.
É lamentável que neste país esteja tudo demasiado solto e isolado. Parece que ninguém se conhece, quando temos cá tudo: uma produção científica muito elevada na universidade, pessoas capazes de fazer e operacionalizar projectos... Mas há uma política egocêntrica, de completo autismo, na criação de equipas multidisciplinares para a resolução destes problemas.
Temos de fazer uma ruptura definitiva para sermos menos casaco e gravata, sermos mais humildes, arregaçarmos as mangas, irmos para o terreno, não haver complexos de inferioridade ou superioridade, fazermos uma melhor ligação entre a Universidade e os serviços, quer do Estado quer privados, de modo a que todos juntos consigamos criar um território e, dentro desse território, uma qualidade de vida dos cidadãos independentemente da classe social, da etnia, etc., porque este país vai ser cada vez mais multicultural. Por isso temos que nos preparar rapidamente para, acima de tudo, acabarmos com este verdadeiro inferno de rapidez na maneira de conseguirmos resolver o nosso dia-a-dia. Há hoje pessoas que vão para o ginásio fazer actividade física cansadas: é pior a emenda do que o soneto, porque saem de lá ainda mais cansadas. O problema não está em fazer um determinado tipo de actividade física, mas em encontrar um equilíbrio e prazer de vida. Acho que os portugueses estão à beira de um ataque de nervos, no sentido de perderem o conceito do que é viver com prazer.

« A falta de literacia dos portugueses é uma consequência natural de uma má formação corporal »

Parece-lhe que, actualmente, é um acto de coragem ter um filho?
Acho que é um acto de grande coragem, tendo em conta a situação em que vivemos. Não quero ser muito pessimista –sou optimista por natureza-, mas parece-me que deveriam ser eleitos como objectivos fundamentais das políticas governamentais a vida das famílias, a educação dos filhos, a oportunidade de socialização dessas crianças e uma melhoria dos espaços e do território, com uma maior produção de políticas culturais e artísticas porque, de facto, o cidadão português, por mais oportunidades que tenha de acesso a eventos de natureza artística e cultural, não tem formação nem condições para tomar por si próprio decisões para essa participação. Parece-me que essa atitude tem de começar ao nível da infância, nas escolas, na família. As pessoas, até as mais bem colocadas em termos políticos e sociais, parece que não são capazes de olhar para si próprias e ver o que se está a passar na gestão do tempo, do espaço e das actividades que têm como adultos e que dão aos seus próprios filhos.
Quero dizer-lhe uma coisa, que pode parecer uma tontice da minha parte: tenho visto nos últimos dois, três anos uma discussão enormíssima sobre o tema dos acidentes rodoviários em Portugal. Há inúmeras razões para justificar tantos acidentes automóveis, mas por melhores auto-estradas que tenhamos, melhor sinalização ou mais controlo do nível de álcool, os acidentes vão continuar. Porque está em causa, do meu ponto de vista, uma má formação da cultura física dos portugueses. O corpo que não é activo não tem uma noção das suas capacidades preceptivas, sensoriais e motoras; quando um indivíduo conduz um veículo, que é um prolongamento do seu próprio corpo, as más decisões acontecem, porque ele não conhece o corpo, não tem estimulação. A falta de literacia dos portugueses é uma consequência natural de uma má formação corporal, é óbvio! Essa questão de não se saber matemática, português, de não se saber ler, escrever e contar é um problema primeiro da falta de conhecimento do corpo.
Eu trabalho com crianças há 25 anos. Sou professor universitário, mas todas as semanas tenho as minhas crianças, porque essa é a minha fonte de aprendizagem. O que eu vejo todos os anos, à medida que elas me chegam, é que são mais pobres do ponto de vista de um repertório motor. São cada vez mais descoordenadas, com menos auto-estima, com um esquema corporal mais destrambelhado, mais hiperactivas. Não têm um corpo solto, nem disponível, nem flexível, não têm uma formação global, integral do ponto de vista corporal, são crianças muito formatadas que não têm os joelhos esfolados. Não estou a culpar os pais nem ninguém; estou a dizer que a sociedade não viu este problema e isto é gravíssimo para o futuro. Porque vamos ter cidadãos inactivos...

Inaptos?
Sim, do ponto de vista motor (e podem ser génios do ponto de vista intelectual). Não podemos conscientemente criar condições para uma sociedade sedentária. Porque o povo português tem uma longa história de actividade, capacidade coordenativa, cultura manual e física no sentido pleno das palavras. E o que eu vejo hoje é uma padronização preocupante dessa figura do corpo português em várias idades. A cultura física dos portugueses devia continuar esse sentido histórico, independentemente das enormes mudanças sociais que temos tido, nessa disponibilidade para ter um corpo expressivo. E isso começa na infância.



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