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Cinco Paradoxos sobre o Jogo
e um jogo nada paradoxal
1. O jogo é algo universal e ao mesmo
tempo algo impossível de universalizar.
Desmonte-se o paradoxo: embora o jogo
seja omnipresente a todas as culturas, como
afirmava Johan Huizinga, os jogos variam de
cultura para cultura e são – cf. Roger
Caillois e Marshall MacLuhan – um espelho destas.
Classificar os jogos dominantes em cada cultura
é também uma forma de classificar
as sociedades respectivas.
2. O jogo é um micro-modelo
da vida em sociedade e ao mesmo tempo algo completamente
distinto da vida em sociedade.
Desmonte-se o paradoxo: o jogo só pode
ser um micro-modelo na medida em que, como as
metáforas, privilegia apenas um aspecto
da vida em sociedade, descurando ou colocando
em segundo plano os outros. Daí que tenha
também de ser olhado de forma estética,
pois, ao contrário das sociedades, tende
para a auto-suficiência e para o fechamento
(ou secludedness, como diria Richard
Sennett).
3. O jogo é algo que monopoliza
a atenção do jogador e ao mesmo
tempo algo onde se exige que o jogador não
esgote nele toda a sua atenção.
Desmonte-se o paradoxo: para se estar verdadeiramente
a jogar, é necessário um alto
grau de envolvimento na actividade, mas se este
envolvimento ultrapassa determinado nível
torna-se uma obsessão. Para não
ser obsessão (cf. Erving Goffman), jogar
obriga a que se tenha permanentemente uma janela
para o mundo exterior, como o demonstram as
possibilidades de interromper o jogo ou de recuar
nas jogadas.
4. O jogo é algo dependente
de regras e ao mesmo tempo algo dotado de flexibilidade.
Desmonte-se o paradoxo: conforme a oposição
proposta por George Herbert Mead, o jogo começa
por ser mero play, a actividade de
brincar sem regras. À medida que se transforma
no regrado game, não se perde
com isso a liberdade de jogar. Em contraponto,
a subversão ocasional das regras não
deixa que o game volte a ser play,
pois mudar uma regra é afinal substituí-la
por uma regra alternativa.
5. O jogo é algo absolutamente
inútil e ao mesmo tempo algo absolutamente
indispensável.
Desmonte-se o paradoxo: O jogo é improdutivo;
é, como falava Georges Bataille a propósito
de uma economia geral que tem de incluir a análise
do desperdício, algo que pertence à
«parte maldita», porque inútil,
do social. Mas nem mesmo os sonhos mais loucos
de funcionalização totalizante
da sociedade podem aniquilar o jogo, por exemplo
os jogos clandestinos que sustentam verdadeiras
economias paralelas. A própria produtividade,
bem como a instrução (i. e., a
educação funcionalizada), exigem
a presença do jogo.
Conclusão(?): O
jogo nada é se não for jogado.
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