CEM REFLEXÕES Cinco Paradoxos sobre o Jogo Reflexões


Lugar transparente
e sumarento onde
se registam
pensamentos,
preocupações, opiniões.

Jorge Martins Rosa  Novembro 2003



Cinco Paradoxos sobre o Jogo e um jogo nada paradoxal

1. O jogo é algo universal e ao mesmo tempo algo impossível de universalizar.
Desmonte-se o paradoxo: embora o jogo seja omnipresente a todas as culturas, como afirmava Johan Huizinga, os jogos variam de cultura para cultura e são – cf. Roger Caillois e Marshall MacLuhan – um espelho destas. Classificar os jogos dominantes em cada cultura é também uma forma de classificar as sociedades respectivas.

2. O jogo é um micro-modelo da vida em sociedade e ao mesmo tempo algo completamente distinto da vida em sociedade.
Desmonte-se o paradoxo: o jogo só pode ser um micro-modelo na medida em que, como as metáforas, privilegia apenas um aspecto da vida em sociedade, descurando ou colocando em segundo plano os outros. Daí que tenha também de ser olhado de forma estética, pois, ao contrário das sociedades, tende para a auto-suficiência e para o fechamento (ou secludedness, como diria Richard Sennett).

3. O jogo é algo que monopoliza a atenção do jogador e ao mesmo tempo algo onde se exige que o jogador não esgote nele toda a sua atenção.
Desmonte-se o paradoxo: para se estar verdadeiramente a jogar, é necessário um alto grau de envolvimento na actividade, mas se este envolvimento ultrapassa determinado nível torna-se uma obsessão. Para não ser obsessão (cf. Erving Goffman), jogar obriga a que se tenha permanentemente uma janela para o mundo exterior, como o demonstram as possibilidades de interromper o jogo ou de recuar nas jogadas.

4. O jogo é algo dependente de regras e ao mesmo tempo algo dotado de flexibilidade.
Desmonte-se o paradoxo: conforme a oposição proposta por George Herbert Mead, o jogo começa por ser mero play, a actividade de brincar sem regras. À medida que se transforma no regrado game, não se perde com isso a liberdade de jogar. Em contraponto, a subversão ocasional das regras não deixa que o game volte a ser play, pois mudar uma regra é afinal substituí-la por uma regra alternativa.

5. O jogo é algo absolutamente inútil e ao mesmo tempo algo absolutamente indispensável.
Desmonte-se o paradoxo: O jogo é improdutivo; é, como falava Georges Bataille a propósito de uma economia geral que tem de incluir a análise do desperdício, algo que pertence à «parte maldita», porque inútil, do social. Mas nem mesmo os sonhos mais loucos de funcionalização totalizante da sociedade podem aniquilar o jogo, por exemplo os jogos clandestinos que sustentam verdadeiras economias paralelas. A própria produtividade, bem como a instrução (i. e., a educação funcionalizada), exigem a presença do jogo.

Conclusão(?): O jogo nada é se não for jogado.



top



Formação
  Produção  Ligações
Search CEM:


Home  Contacte-nos

ARTIGOS NOVEMBRO 2003
A ossatura do desenho
Catarina Lino
Cinco Paradoxos sobre o Jogo
e um jogo nada paradoxal

Jorge Martins Rosa
A curva profunda
Fernando Chainço
Entrevista com Danis Bois
Maria do Mar Gago

Arquivo