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Materna Doçura
Maria Nobre Franco, directora do Sintra
Museu de Arte Moderna criado para albergar a
Colecção Berardo, está
ligada ao nascimento desse projecto e vive o
seu trabalho com a doçura e preocupação
de uma mãe zelosa do bem-estar de um
filho. No seu gabinete conversámos sobre
a Colecção, o seu dono e o trabalho
dela.
Como se ligou à Colecção
Berardo?
Eu tinha uma Galeria de arte em Lisboa, a Galeria
Valentim de Carvalho, onde o Dr. Francisco Capelo
ia muitas vezes; era um dos meus clientes, conhecia-me
e falávamos muito sobre arte. E foi o
Francisco Capelo quem teve a ideia e fez a Colecção
Berardo. Ele trabalhava com o Comendador José
Manuel Berardo e teve a ideia de fazer a Colecção
paga pelo Berardo. Ainda a Colecção
não era pública mas já
ele estava a prepará-la e falávamos
muito sobre isso. Tínhamos longas conversas,
a ver livros e obras e o que é que interessava
mais ou não... Ele é um homem
extremamente criativo e muitíssimo inteligente
e quando se mete nas coisas faz um mergulho.
A certa altura, em 1993, já ele tinha
comprado algumas obras e já se sabia
o que ia ser A Colecção Berardo
- a ideia sempre foi fazer uma colecção
para abrir um museu, para ser apresentada publicamente;
muitas pessoas compram obras para ter em casa
e até há, em Portugal e no estrangeiro,
muitos coleccionadores que não querem
que se saiba o que têm.
Significa isso que houve desde sempre
um interesse pedagógico na aquisição
das peças?
Pelo menos compraram logo a pensar em apresentar
publicamente. E em 1993 o Francisco Capelo,
que era a pessoa que eu conhecia (e só
conheci o Berardo depois), propõs-me
fazer uma exposição na minha Galeria
– funcionava no Palácio Alcáçovas,
do século XVIII, com duas salas lindíssimas
e um jardim. Propôs-me fazer uma exposição
das obras que estavam a ser compradas.
«não tenho jeito nenhum para
discutir preços»
Teve desde logo essa premonição
do que poderia ser o futuro da Colecção
Berardo?
Não. Eles diziam que ia haver um museu,
mas tudo isso ainda era um bocado longínquo,
ainda era o futuro! Continuei a dar-me com o
Francisco Capelo e, em fins de 1994, ele propôs-me
vir trabalhar para o Museu (já andavam
à procura de casa) e eu mostrei-me interessada;
porque queria continuar a trabalhar em arte,
mas estava cansada do trabalho de uma Galeria,
que é muito violento. Vender é
difícil e eu não sou nada marroquina,
embora fisicamente possa parecer. Acho que não
tenho jeito nenhum para discutir preços,
porque para mim a arte é uma coisa sublime.
Quando gosto das obras de um determinado artista,
tudo se passa a um nível que até
me aborrece falar em dinheiro.
Mas a maioria dos compradores de arte
em Portugal não tem essa noção,
ou é mais aquele espírito do investimento
financeiro que vigora?
Há de tudo. Mas acho que fui uma óptima
galerista. Era muito exigente na escolha dos
artistas, tive exposições óptimas
e algumas históricas, e quando me aparecia
um senhor, que eu nunca tinha visto, que não
percebia nada de arte e dizia que queria comprar
aquele quadro e ao mesmo tempo afirmava que
também era capaz de fazer aquilo (esta
é uma reacção que ainda
creio que aconteça muito), eu ficava
logo furiosa e apetecia-me dizer «não
vendo!» Às vezes teria de vender,
conforme os casos... mas enfim, isto é
só para explicar que, por um lado, queria
continuar a trabalhar em arte, que é
o que me faz vibrar e sentir bem, mas a parte
das vendas era um assunto que não me
agradava. De maneira que me pareceu valer a
pena a oportunidade de trabalhar num Museu.
Houve um período de indecisão
e de procura de espaços...
Que outros espaços estiveram
na calha para se instalar a Colecção?
Houve uma procura em Lisboa que nunca foi concretizada
com nenhum espaço, porque nunca surgiu
um local suficientemente bom, ou acessível
ou possível. Houve uma tentativa de um
espaço de Colares que implicava imensíssimas
obras e, nessa altura, a Dra. Edite Estrela
(presidente da Câmara Municipal de Sintra)
soube deste envolvimento e mostrou uma grande
disponibilidade para este espaço onde
estamos. Era um antigo casino; quando foi feito
em 1924 pertencia a um particular, depois foi
vendido várias vezes, de casino passou
a repartição de finanças,
foi um Liceu, foi várias outras coisas...
Aqui há uns anos foi comprado pelo Município
para se tornar um centro cultural. Quando surgiu
a ideia do Museu, a Dra. Edite Estrela agarrou
a oportunidade: começou as negociações
com o grupo Berardo e surgiu o Museu em 1997.
Nessa altura quantas peças tinha
a Colecção?
Talvez umas quinhentas, seiscentas. Agora tem
mais de mil. Mas já tinha obras a mais
para este espaço. O que acontece com
esta casa, que é muito curiosa e muito
boa, feita por um grande arquitecto que é
o Norte Júnior, é que não
foi feita para um museu. Foi adaptada, foi arranjada,
mas é relativamente pequena para a Colecção.
«gastamos uma pequena fortuna sempre
que precisamos de obras de arte»
Isso significa que a Colecção
vai precisar sempre de ser mostrada noutros
espaços? E a situação ideal
seria tê-la exposta, sempre, na sua totalidade?
Ao ritmo a que a Colecção cresce,
é óbvio que haveria toda a vantagem
em ela estar concentrada no mesmo sítio,
e isto não significa que esteja toda
em exposição –isso não
é possível; acho que nenhum Museu
do mundo tem toda a sua colecção
exposta na mesma altura. Mas se estivéssemos
num espaço suficientemente amplo para
fazermos grandes exposições e
ao mesmo tempo termos no mesmo edifício,
ou muito próximo, as reservas, isso fazia
sentido. O que acontece é que, quando
o Museu abriu, em 1997, foi feito também
um protocolo com o Ministro da Cultura (que
na época era o Dr. Manuel Maria Carrilho)
para as reservas ficarem no Centro Cultural
de Belém, onde estão muito bem
instaladas. Simplesmente nós gastamos
uma pequena fortuna sempre que precisamos de
obras de arte. Porque têm de vir em camiões
e transportadores especiais e o transporte Lisboa/Sintra
acaba por ter um peso muito grande no orçamento
muito baixo do Museu.
«O Comendador Berardo é (...)
extremamente dinâmico e radical e conclusivo
nas suas decisões»
Mas ter uma pessoa como o Comendador
Berardo é uma situação
rara e privilegiada. Podemos falar um bocadinho
desse homem?
Como lhe disse só o conheci em 1993.
Agora conheço-o melhor e parece-me que
é obviamente um homem muito inteligente,
senão não teria feito aquilo que
fez. É extremamente hábil e rápido
a raciocinar, nunca pára de trabalhar.
Eu já lhe perguntei, «como é
que você que é tão rico
tem uma vida de cão?» É
porque gosta, com certeza, e porque tem prazer
nisso. Mas não perde tempo. Se vê
que um negócio onde investiu muito dinheiro
não está a render imediatamente
corta. Parece-me que é assim na vida
com tudo, uma pessoa que objectivamente não
perde tempo. Não sei se tem a experiência
de contactos com intelectuais, que são
sempre muito neuróticos, porque se perdem
nas análises, nas sínteses, a
fazer jogos de malabarismos intelectuais...
O Comendador Berardo é exactamente o
contrário disso, é extremamente
dinâmico e radical e conclusivo nas suas
decisões.
Mas será só por uma questão
de triunfo que existe a Colecção?
Agora já será mais do que isso.
Ele ficou entre as 50 pessoas mais importantes
do mundo da arte o ano passado numa revista
inglesa: obviamente, a certa altura, ele está
tão metido neste mundo que sabe que o
único caminho é continuar. Penso
que vai continuar a comprar enquanto for vivo.
Já não é só uma
questão de ego, é a missão
dele e por isso se preocupa tanto com o que
vai acontecer à Colecção
quando ele cá não estiver. Pede
muitas opiniões antes de comprar as obras.
Mas a sua tendência é sempre comprar
o melhor dentro de um determinado artista e
de uma determinada época; obviamente
que também pensa na parte financeira,
como toda a gente, mas não é isso
o mais importante. Ele sabe que uma colecção
destas quanto mais completa mais valiosa é
e o estar em Museu e ser apresentada ao público
também dá valor à própria
obra e ao nome Berardo.
«tenho uma relação completamente
maternal em relação à Colecção
e ao próprio Comendador Berardo»
Há um certo sentido maternal
no facto de ser a directora deste Museu dedicado
a uma Colecção?
Penso que sim. Está quase a entrar na
parte psicanaílita da questão.
(risos) De facto parece-me que tenho uma relação
completamente maternal em relação
à Colecção e ao próprio
Comendador Berardo, que não se justifica,
porque ele não precisa nada de uma mãezinha
como eu –nem pensar, eu precisava mais de um
pai como ele! (risos). Eu qualquer dia vou-me
embora, como é óbvio estou a chegar
ao fim da minha carreira, e sei que virão
para cá outras pessoas com ideias diferentes
e isto tudo pode até ser muito melhor.
Mas tenho, de facto, um sentimento maternal
em relação a esta colecção.
É um pouco os meus filhos que aqui estão.
Quer dizer que já está
a preparar alguma despedida? Porque
ninguém está a pensar que vai
sair daqui! (risos)
Mas repare, infelizmente eu também me
vejo ao espelho e só vejo rugas e que
é que acontece quando as pessoas têm
muitas rugas? Reformam-se, a partir de certa
altura. (risos) Não é já,
agora ainda tenho projectos muito interessantes
que quero fazer. Mas o futuro será, com
certeza, deixar de ser mãe e passar a
ser amiga.
Vamos falar agora dos públicos.
Há a preocupação de educar
públicos?
Essa preocupação parece-me que
é mesmo um princípio da Colecção
e tem-nos levado a fazer cursos de História
da Arte –convidamos professores, as pessoas
inscrevem-se e os preços são simbólicos.
Os cursos são sempre ao sábado
de manhã, têm vindo muitos jovens
e, à parte disso. há as visitas
guiadas com as escolas. Para elas as entradas
são gratuitas.
Essas visitas escolares funcionam mesmo?
Depende muito do trabalho do professor. Ontem
por exemplo, tivemos a visita de uma escola
que foi um inferno. Nem pôde haver visita
guiada porque ninguém ouvia e foi um
desassossego completo. Eram miúdos de
14 e 15 anos, não vinham nada preparados,
vinham apenas divertir-se. Mas há escolas
fantásticas, em que os professores explicam
bem o que vêm fazer e com alunos de várias
idades que ouvem atentamente a pessoa que faz
a visita guiada, ouvem o professor, dialogam
e os mais pequenos até se sentam nas
salas a desenhar. Nós damos papel, lápis,
tintas e elas estão ali uma hora, o tempo
que eles quiserem. E isso é delicioso.
É a certeza de que as crianças
levam para casa os desenhos que vão mostrar
aos pais e à família e, portanto,
alguma coisa ficou na cabeça delas. Mas
depende muito dos professores.
«É preciso cada vez mais abrir
caminho para as crianças e para os jovens»
Numa entrevista recente o António
Pinto Ribeiro (programador da Culturgest) dizia
que em Portugal as escolas e as universidades
continuam a dar pouca importância à
arte contemporânea. Concorda com a afirmação?
As coisas estão melhores, quando se compara
com o que acontecia há 20 anos atrás,
mas ainda há muito caminho para percorrer.
Há problemas logísticos importantes,
há escolas que querem vir cá e
não têm dinheiro para o autocarro.
É preciso cada vez mais abrir caminho
para as crianças e para os jovens. Eles
são o futuro público, não
é? É por isso que o Museu é
gratuito para as escolas, alías, é
gratuito para todos os estudantes. Não
somos o único Museu a fazer isso, mas
é muito bom que haja essa acção
nos Museus, coisa que há 40, 30, ou mesmo
20 anos atrás era impensável.
E em relação a futuros
projectos?
Em 2004, a partir do dia 8 de Maio, vamos ter
uma exposição que me parece muito
importante e vai ser muito mediática
por várias razões. A principal
é o artista: Júlio Pomar. Vai
chamar-se «Autobiografia», a Presidência
da República também patrocina
a exposição, prestando assim uma
homenagem ao pintor. Na altura, o Governo francês
vai atribuir-lhe uma condecoração
(des Arts e et des Lettres),
porque desde 1960 que o pintor vive uma parte
do ano em Paris e outra em Lisboa. É
uma exposição cara, tem quadros
que vêm da Suécia, França
e até de Luanda. Não é
uma retrospectiva porque não se trata
de mostrar toda a obra dele, é antes
uma escolha, desde 1940 até aos nossos
dias, de obras que ele mesmo considera importantes
na sua vida e no seu percurso. Tem a ver com
os sítios por onde andou, com a prisão
– foi preso com 20 anos e esteve na mesma prisão
com o Mário Soares e até posso
contar uma história engraçada
a respeito disso: um dia, estavam na mesma cela
e o Mário Soares disse ao Júlio
Pomar «tu vais ser o maior pintor português».
O Júlio Pomar respondeu-lhe «e
tu vais ser Presidente da República».
A exposição engloba também
muitas obras inéditas e o público
vai saber onde foi feita cada uma e porque é
que figura na exposição...
O Júlio Pomar é o comissário?
Não, o comisário é o francês
Marcelin Pleinet, mas tem havido um grande envolvimento
do próprio Júlio Pomar e do filho,
Alexandre Pomar.
«temos de fazer muito por Portugal
para o país melhorar»
Mas existem obras do Júlio Pomar
na Colecção Berardo?
Sim, sim. Há uma que se chama La
Lune Verte que já foi comprada há
uns anos e vai ser mostrada pela primeira vez
ao público. Há uma outra história
curiosa que envolve o Governo franmcês
que é o seguinte: vamos ter cá
uma obra que o Governo francês comprou
a Júlio Pomar há uns 15 anos.
Pensei que ia ser muito difícil chegar
ao Ministério onde ela está, mas
em menos de 24 horas, com a ajuda do adido cultural
da Embaixada de França em Portugal, eu
tinha todos os contactos das pessoas com quem
tinha de falar para pedir a obra. Ao mesmo tempo,
pedi uma obra ao Ministério da Cultura
português, um quadro a óleo, grande,
do Camões, e chegou-se à conclusão
que o quadro tinha desaparecido. Estava no depósito
do Centro Cultural de Belém e de repente
desapareceu... O caso está na Judiciária.
Isto não significa que eu seja negativa,
mas parece-me que temos de fazer muito por Portugal
para o país melhorar. Todos temos de
ter consciência neste país de que
as coisas que estão mal são para
melhorar, e não apenas para dizer que
estão mal. Para terminar, ha ainda outro
pormenor curioso: Júlio Pomar fez uma
escolha das obras da Colecção
Berardo que mais lhe interessam e a sua exposição
vai ser pontuada com outras obras da Colecção,
com textos dele sobre arte e sobre alguns artistas.
Uma pessoa que nessa altura venha visitar a
exposição, mesmo que não
perceba nada de arte vai ficar com uma ideia
muito clara de quem é Júlio Pomar,
se ler todos os textos expostos e observar todas
as obras seleccionadas.
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