CEM REFLEXÕES Entrevista com Maria Nobre Franco Reflexões


Lugar transparente
e sumarento onde
se registam
pensamentos,
preocupações, opiniões.

Cláudia Almeida  Dezembro 2003



Materna Doçura
Maria Nobre Franco, directora do Sintra Museu de Arte Moderna criado para albergar a Colecção Berardo, está ligada ao nascimento desse projecto e vive o seu trabalho com a doçura e preocupação de uma mãe zelosa do bem-estar de um filho. No seu gabinete conversámos sobre a Colecção, o seu dono e o trabalho dela.

Como se ligou à Colecção Berardo?
Eu tinha uma Galeria de arte em Lisboa, a Galeria Valentim de Carvalho, onde o Dr. Francisco Capelo ia muitas vezes; era um dos meus clientes, conhecia-me e falávamos muito sobre arte. E foi o Francisco Capelo quem teve a ideia e fez a Colecção Berardo. Ele trabalhava com o Comendador José Manuel Berardo e teve a ideia de fazer a Colecção paga pelo Berardo. Ainda a Colecção não era pública mas já ele estava a prepará-la e falávamos muito sobre isso. Tínhamos longas conversas, a ver livros e obras e o que é que interessava mais ou não... Ele é um homem extremamente criativo e muitíssimo inteligente e quando se mete nas coisas faz um mergulho. A certa altura, em 1993, já ele tinha comprado algumas obras e já se sabia o que ia ser A Colecção Berardo - a ideia sempre foi fazer uma colecção para abrir um museu, para ser apresentada publicamente; muitas pessoas compram obras para ter em casa e até há, em Portugal e no estrangeiro, muitos coleccionadores que não querem que se saiba o que têm.

Significa isso que houve desde sempre um interesse pedagógico na aquisição das peças?
Pelo menos compraram logo a pensar em apresentar publicamente. E em 1993 o Francisco Capelo, que era a pessoa que eu conhecia (e só conheci o Berardo depois), propõs-me fazer uma exposição na minha Galeria – funcionava no Palácio Alcáçovas, do século XVIII, com duas salas lindíssimas e um jardim. Propôs-me fazer uma exposição das obras que estavam a ser compradas.

«não tenho jeito nenhum para discutir preços»

Teve desde logo essa premonição do que poderia ser o futuro da Colecção Berardo?
Não. Eles diziam que ia haver um museu, mas tudo isso ainda era um bocado longínquo, ainda era o futuro! Continuei a dar-me com o Francisco Capelo e, em fins de 1994, ele propôs-me vir trabalhar para o Museu (já andavam à procura de casa) e eu mostrei-me interessada; porque queria continuar a trabalhar em arte, mas estava cansada do trabalho de uma Galeria, que é muito violento. Vender é difícil e eu não sou nada marroquina, embora fisicamente possa parecer. Acho que não tenho jeito nenhum para discutir preços, porque para mim a arte é uma coisa sublime. Quando gosto das obras de um determinado artista, tudo se passa a um nível que até me aborrece falar em dinheiro.

Mas a maioria dos compradores de arte em Portugal não tem essa noção, ou é mais aquele espírito do investimento financeiro que vigora?
Há de tudo. Mas acho que fui uma óptima galerista. Era muito exigente na escolha dos artistas, tive exposições óptimas e algumas históricas, e quando me aparecia um senhor, que eu nunca tinha visto, que não percebia nada de arte e dizia que queria comprar aquele quadro e ao mesmo tempo afirmava que também era capaz de fazer aquilo (esta é uma reacção que ainda creio que aconteça muito), eu ficava logo furiosa e apetecia-me dizer «não vendo!» Às vezes teria de vender, conforme os casos... mas enfim, isto é só para explicar que, por um lado, queria continuar a trabalhar em arte, que é o que me faz vibrar e sentir bem, mas a parte das vendas era um assunto que não me agradava. De maneira que me pareceu valer a pena a oportunidade de trabalhar num Museu. Houve um período de indecisão e de procura de espaços...

Que outros espaços estiveram na calha para se instalar a Colecção?
Houve uma procura em Lisboa que nunca foi concretizada com nenhum espaço, porque nunca surgiu um local suficientemente bom, ou acessível ou possível. Houve uma tentativa de um espaço de Colares que implicava imensíssimas obras e, nessa altura, a Dra. Edite Estrela (presidente da Câmara Municipal de Sintra) soube deste envolvimento e mostrou uma grande disponibilidade para este espaço onde estamos. Era um antigo casino; quando foi feito em 1924 pertencia a um particular, depois foi vendido várias vezes, de casino passou a repartição de finanças, foi um Liceu, foi várias outras coisas... Aqui há uns anos foi comprado pelo Município para se tornar um centro cultural. Quando surgiu a ideia do Museu, a Dra. Edite Estrela agarrou a oportunidade: começou as negociações com o grupo Berardo e surgiu o Museu em 1997.

Nessa altura quantas peças tinha a Colecção?
Talvez umas quinhentas, seiscentas. Agora tem mais de mil. Mas já tinha obras a mais para este espaço. O que acontece com esta casa, que é muito curiosa e muito boa, feita por um grande arquitecto que é o Norte Júnior, é que não foi feita para um museu. Foi adaptada, foi arranjada, mas é relativamente pequena para a Colecção.

«gastamos uma pequena fortuna sempre que precisamos de obras de arte»

Isso significa que a Colecção vai precisar sempre de ser mostrada noutros espaços? E a situação ideal seria tê-la exposta, sempre, na sua totalidade?
Ao ritmo a que a Colecção cresce, é óbvio que haveria toda a vantagem em ela estar concentrada no mesmo sítio, e isto não significa que esteja toda em exposição –isso não é possível; acho que nenhum Museu do mundo tem toda a sua colecção exposta na mesma altura. Mas se estivéssemos num espaço suficientemente amplo para fazermos grandes exposições e ao mesmo tempo termos no mesmo edifício, ou muito próximo, as reservas, isso fazia sentido. O que acontece é que, quando o Museu abriu, em 1997, foi feito também um protocolo com o Ministro da Cultura (que na época era o Dr. Manuel Maria Carrilho) para as reservas ficarem no Centro Cultural de Belém, onde estão muito bem instaladas. Simplesmente nós gastamos uma pequena fortuna sempre que precisamos de obras de arte. Porque têm de vir em camiões e transportadores especiais e o transporte Lisboa/Sintra acaba por ter um peso muito grande no orçamento muito baixo do Museu.

«O Comendador Berardo é (...) extremamente dinâmico e radical e conclusivo nas suas decisões»


Mas ter uma pessoa como o Comendador Berardo é uma situação rara e privilegiada. Podemos falar um bocadinho desse homem?
Como lhe disse só o conheci em 1993. Agora conheço-o melhor e parece-me que é obviamente um homem muito inteligente, senão não teria feito aquilo que fez. É extremamente hábil e rápido a raciocinar, nunca pára de trabalhar. Eu já lhe perguntei, «como é que você que é tão rico tem uma vida de cão?» É porque gosta, com certeza, e porque tem prazer nisso. Mas não perde tempo. Se vê que um negócio onde investiu muito dinheiro não está a render imediatamente corta. Parece-me que é assim na vida com tudo, uma pessoa que objectivamente não perde tempo. Não sei se tem a experiência de contactos com intelectuais, que são sempre muito neuróticos, porque se perdem nas análises, nas sínteses, a fazer jogos de malabarismos intelectuais... O Comendador Berardo é exactamente o contrário disso, é extremamente dinâmico e radical e conclusivo nas suas decisões.

Mas será só por uma questão de triunfo que existe a Colecção?
Agora já será mais do que isso. Ele ficou entre as 50 pessoas mais importantes do mundo da arte o ano passado numa revista inglesa: obviamente, a certa altura, ele está tão metido neste mundo que sabe que o único caminho é continuar. Penso que vai continuar a comprar enquanto for vivo. Já não é só uma questão de ego, é a missão dele e por isso se preocupa tanto com o que vai acontecer à Colecção quando ele cá não estiver. Pede muitas opiniões antes de comprar as obras. Mas a sua tendência é sempre comprar o melhor dentro de um determinado artista e de uma determinada época; obviamente que também pensa na parte financeira, como toda a gente, mas não é isso o mais importante. Ele sabe que uma colecção destas quanto mais completa mais valiosa é e o estar em Museu e ser apresentada ao público também dá valor à própria obra e ao nome Berardo.

«tenho uma relação completamente maternal em relação à Colecção e ao próprio Comendador Berardo»

Há um certo sentido maternal no facto de ser a directora deste Museu dedicado a uma Colecção?
Penso que sim. Está quase a entrar na parte psicanaílita da questão. (risos) De facto parece-me que tenho uma relação completamente maternal em relação à Colecção e ao próprio Comendador Berardo, que não se justifica, porque ele não precisa nada de uma mãezinha como eu –nem pensar, eu precisava mais de um pai como ele! (risos). Eu qualquer dia vou-me embora, como é óbvio estou a chegar ao fim da minha carreira, e sei que virão para cá outras pessoas com ideias diferentes e isto tudo pode até ser muito melhor. Mas tenho, de facto, um sentimento maternal em relação a esta colecção. É um pouco os meus filhos que aqui estão.

Quer dizer que já está a preparar alguma despedida? Porque ninguém está a pensar que vai sair daqui! (risos)
Mas repare, infelizmente eu também me vejo ao espelho e só vejo rugas e que é que acontece quando as pessoas têm muitas rugas? Reformam-se, a partir de certa altura. (risos) Não é já, agora ainda tenho projectos muito interessantes que quero fazer. Mas o futuro será, com certeza, deixar de ser mãe e passar a ser amiga.

Vamos falar agora dos públicos. Há a preocupação de educar públicos?
Essa preocupação parece-me que é mesmo um princípio da Colecção e tem-nos levado a fazer cursos de História da Arte –convidamos professores, as pessoas inscrevem-se e os preços são simbólicos. Os cursos são sempre ao sábado de manhã, têm vindo muitos jovens e, à parte disso. há as visitas guiadas com as escolas. Para elas as entradas são gratuitas.

Essas visitas escolares funcionam mesmo?
Depende muito do trabalho do professor. Ontem por exemplo, tivemos a visita de uma escola que foi um inferno. Nem pôde haver visita guiada porque ninguém ouvia e foi um desassossego completo. Eram miúdos de 14 e 15 anos, não vinham nada preparados, vinham apenas divertir-se. Mas há escolas fantásticas, em que os professores explicam bem o que vêm fazer e com alunos de várias idades que ouvem atentamente a pessoa que faz a visita guiada, ouvem o professor, dialogam e os mais pequenos até se sentam nas salas a desenhar. Nós damos papel, lápis, tintas e elas estão ali uma hora, o tempo que eles quiserem. E isso é delicioso. É a certeza de que as crianças levam para casa os desenhos que vão mostrar aos pais e à família e, portanto, alguma coisa ficou na cabeça delas. Mas depende muito dos professores.

«É preciso cada vez mais abrir caminho para as crianças e para os jovens»

Numa entrevista recente o António Pinto Ribeiro (programador da Culturgest) dizia que em Portugal as escolas e as universidades continuam a dar pouca importância à arte contemporânea. Concorda com a afirmação?
As coisas estão melhores, quando se compara com o que acontecia há 20 anos atrás, mas ainda há muito caminho para percorrer. Há problemas logísticos importantes, há escolas que querem vir cá e não têm dinheiro para o autocarro. É preciso cada vez mais abrir caminho para as crianças e para os jovens. Eles são o futuro público, não é? É por isso que o Museu é gratuito para as escolas, alías, é gratuito para todos os estudantes. Não somos o único Museu a fazer isso, mas é muito bom que haja essa acção nos Museus, coisa que há 40, 30, ou mesmo 20 anos atrás era impensável.

E em relação a futuros projectos?
Em 2004, a partir do dia 8 de Maio, vamos ter uma exposição que me parece muito importante e vai ser muito mediática por várias razões. A principal é o artista: Júlio Pomar. Vai chamar-se «Autobiografia», a Presidência da República também patrocina a exposição, prestando assim uma homenagem ao pintor. Na altura, o Governo francês vai atribuir-lhe uma condecoração (des Arts e et des Lettres), porque desde 1960 que o pintor vive uma parte do ano em Paris e outra em Lisboa. É uma exposição cara, tem quadros que vêm da Suécia, França e até de Luanda. Não é uma retrospectiva porque não se trata de mostrar toda a obra dele, é antes uma escolha, desde 1940 até aos nossos dias, de obras que ele mesmo considera importantes na sua vida e no seu percurso. Tem a ver com os sítios por onde andou, com a prisão – foi preso com 20 anos e esteve na mesma prisão com o Mário Soares e até posso contar uma história engraçada a respeito disso: um dia, estavam na mesma cela e o Mário Soares disse ao Júlio Pomar «tu vais ser o maior pintor português». O Júlio Pomar respondeu-lhe «e tu vais ser Presidente da República». A exposição engloba também muitas obras inéditas e o público vai saber onde foi feita cada uma e porque é que figura na exposição...

O Júlio Pomar é o comissário?
Não, o comisário é o francês Marcelin Pleinet, mas tem havido um grande envolvimento do próprio Júlio Pomar e do filho, Alexandre Pomar.

«temos de fazer muito por Portugal para o país melhorar»

Mas existem obras do Júlio Pomar na Colecção Berardo?
Sim, sim. Há uma que se chama La Lune Verte que já foi comprada há uns anos e vai ser mostrada pela primeira vez ao público. Há uma outra história curiosa que envolve o Governo franmcês que é o seguinte: vamos ter cá uma obra que o Governo francês comprou a Júlio Pomar há uns 15 anos. Pensei que ia ser muito difícil chegar ao Ministério onde ela está, mas em menos de 24 horas, com a ajuda do adido cultural da Embaixada de França em Portugal, eu tinha todos os contactos das pessoas com quem tinha de falar para pedir a obra. Ao mesmo tempo, pedi uma obra ao Ministério da Cultura português, um quadro a óleo, grande, do Camões, e chegou-se à conclusão que o quadro tinha desaparecido. Estava no depósito do Centro Cultural de Belém e de repente desapareceu... O caso está na Judiciária. Isto não significa que eu seja negativa, mas parece-me que temos de fazer muito por Portugal para o país melhorar. Todos temos de ter consciência neste país de que as coisas que estão mal são para melhorar, e não apenas para dizer que estão mal. Para terminar, ha ainda outro pormenor curioso: Júlio Pomar fez uma escolha das obras da Colecção Berardo que mais lhe interessam e a sua exposição vai ser pontuada com outras obras da Colecção, com textos dele sobre arte e sobre alguns artistas. Uma pessoa que nessa altura venha visitar a exposição, mesmo que não perceba nada de arte vai ficar com uma ideia muito clara de quem é Júlio Pomar, se ler todos os textos expostos e observar todas as obras seleccionadas.




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