CEM REFLEXÕES Entrevista com Brígida Machado Reflexões




Lugar transparente
e sumarento onde
se registam
pensamentos,
preocupações, opiniões.

Cláudia Almeida  Abril 2004



Seres fantásticos

Tem olhos e cabelo claros. Alta, tímida e discreta, Brígida Machado, 23 anos, é autora de novos seres que acendem outras luzes no universo da pintura contemporânea portuguesa. Alentejana de Évora, desde pequena que vive fascinada por animais, reais e imaginários. Na Galeria Trema está ainda patente (até 8 de Abril) a exposição com os seus últimos trabalhos. Têm muita cor e respiram uma maturidade invulgar - que ultrapassa uma realidade palpável e se reforça no âmago das emoções primárias.
Conversámos durante a inauguração da sua última exposição, na Galeria Trema. A sala estava cheia de amigos e familiares. Nas paredes reinavam essas fantasiosas criaturas com feições hiper-expressivas. Como se andassem nas suas vidas e houvesse janelas – os quadros - por onde as podíamos espreitar.


Estou a olhar para uma girafa que está com a cabeça em baixo e, nas hastes, tem uma meia pedurada com duas molas.
Esta girafa chama-se sarampo, por causa das bolinhas que eu fiz no fim. Mas é como se ela tivesse metido a pata na água e agora tem que secar a meia. (risos)
E isto é um coelho que dentro da cabeça tem um mecanismo onde andam a saltar dois lagartos.
São dois lagartos que estão a ajudá-lo a pensar. O coelho em vez de ter um cérebro tem umas rodas dentadas e pedais que accionam o pensamento, e os outros animais também ajudam um pouco. E neste outro caso [outro quadro] já não se trata de nada disso; o lagarto está a ajudar-se a si próprio, o porco tem a cabeça cheia de coisas mas também não está a pensar...
De onde lhe vêm estes animais de cabeças abertas, mãos e pernas humanas...?
Tem um bocado a ver com as minhas referências infantis. Eu sou de Évora, cresci a relacionar-me com os animais, numa quinta, e depois vim estudar para Lisboa, para a Escola de Belas-Artes, e as coisas começaram a juntar-se.
Pintura era o curso que sempre pensou fazer?
No Ensino Secundário decidi ir para Artes e nunca quis ir para Arquitectura nem nada disso, foi sempre pintura.
A primeira vez que pintou uma tela, ainda se lembra? Havia aquele nervosismo de ser “a primeira”?
Havia um bocadinho, porque comecei com óleo e essa é uma técnica muito difícil. Com acrílico é muito mais fácil; seca mais depressa, o tratamento da cor é completamente diferente. Portanto, com o óleo foi um bocadinho difícil. E o que fiz foi uma natureza morta, com uma peça qualquer à vista, ainda não era nada da minha criatividade.
Quando essa criativida surgiu foi logo assumida, ou teve receio em mostrá-la?
Eu desenhava nuns caderninhos.
Nas aulas?
Sim, claro. Acho que todos os estudantes devem fazer isso. Inventava os meus bichos.
Estes bichos da última exposição: são bichos com máquinas.
Sim. Também já fiz com brinquedos. Gosto de os associar a brinquedos, a pedais e outros mecanismos.

«quando se pensa no homem há a tendência para pensar que é um ser superior ao animal, e eu penso que estamos todos ao mesmo nível»

Mas o que é que a faz criar esses bichos com máquinas, é uma noção de movimento, de acasalamento, de intimidade/interioridade?
Já pensei sobre isso. É uma noção de movimento mas também é um pouco a “aumentação” do animal. Não se trata da diminuição do homem, porque tenho aqui animais com pernas e braços, são sempre um bocado antropomórficos. Mas quando se pensa no homem há a tendência para pensar que é um ser superior ao animal, e eu penso que estamos todos ao mesmo nível. Por isso gosto de os misturar, faço questão que eles convivam uns com os outros.
Mas como é que surgem estes animais a partir do ambiente de uma quinta?
Surgem, essencialmente, porque eu não podia estar continuamente a repetir os mesmos animais. Acabei por descobrir os papa-formigas, que adorei, e ainda há pouco tempo vi un na televisão que não tem nada a ver com o que eu faço.
Mas no início desenhava mesmo a vaca, o porco, as galinhas que andavam lá pela quinta?
Sim, inclusive sempre participei nas actividades da quinta.
Ordenhava a vaca...?
Sim, sim. E ainda gosto dessas actividades rurais.

«agrada-me a ideia de que as pessoas se riam (...) quando olham para os meus quadros»

O humor revela-se sempre, em todos estes quadros.
Sou um bocado tímida, mas agrada-me a ideia de que as pessoas se riam, achem piada e se divirtam quando olham para os meus quadros. Para mim é mesmo muito gratificante que elas se sintam bem a olhar para uma coisa que têm em casa, na parede.
E os desenhos a preto e branco?
Tenho alguns desenhos com técnica mista com ecolina e tenho gravuras.
Aí já não se sente a alegria das cores.
A gravura, quanto a mim, é sempre uma atitude mais sóbria. Em relação aos meus bichos, estão numa atitude muito mais calma e serena. Não é tanto para ter humor, é algo mais introspectivo. Daí a cor mais sóbria.
Imagina os seus quadros em molduras?
Estes particularmente, não. Irrita-me, até, um bocadinho, as molduras. Estes, foram mesmo feitos para ficarem assim; têm caixas altas e não imagino nada à volta deles que os possa suportar, já têm cor suficiente.
Há quantos anos pinta?
Não sei... desde os 12, 13 anos.
Portanto, há 10 anos. E quando aconteceu a primeira exposição?
Aconteceu há três anos, aqui na Galeria Trema. Fiz algumas coisas ocasionais em Évora, mas nada de especial.
Já assumiu o papel da Artista?
Relações públicas não é nada comigo. Mas a ideia é, de facto, partilhar a minha obra, e às pessoas que cá vêm basta-lhes isso; não têm de me conhecer pessoalmente.
Quais são os planos para o futuro próximo?
Estou a acabar a Faculdade [curso de Pintura], o ano passado fiz o programa Erasmus em Milão e estava a pensar em ir para fora mais um ano, talvez novamente para Itália.
E tenciona ficar-se pela pintura?
Queria experimentar a ilustração e aprofundar vários aspectos da gravura. Há muita coisa que gostava de fazer em litografia e serigrafia.
Relativamente à iliustração, pensa enveredar um dia pela ilustração infantil?
Acho que se pode partir daí. Mas também me ocorre outro tipo de ilustração. E há uma experiência em que me agrada muito pensar, que seria alguém escrever sobre as minhas coisas, que criasse um conto ou outro tipo de texto a partir dos meus trabalhos.
[www.trema-arte.pt]



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