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Seres fantásticos
Tem olhos e cabelo claros. Alta, tímida
e discreta, Brígida Machado, 23 anos,
é autora de novos seres que acendem outras
luzes no universo da pintura contemporânea
portuguesa. Alentejana de Évora, desde
pequena que vive fascinada por animais, reais
e imaginários. Na Galeria Trema está
ainda patente (até 8 de Abril) a exposição
com os seus últimos trabalhos. Têm
muita cor e respiram uma maturidade invulgar
- que ultrapassa uma realidade palpável
e se reforça no âmago das emoções
primárias.
Conversámos durante a inauguração
da sua última exposição,
na Galeria Trema. A sala estava cheia de amigos
e familiares. Nas paredes reinavam essas fantasiosas
criaturas com feições hiper-expressivas.
Como se andassem nas suas vidas e houvesse janelas
– os quadros - por onde as podíamos espreitar.
Estou a olhar para uma girafa que está
com a cabeça em baixo e, nas hastes,
tem uma meia pedurada com duas molas.
Esta girafa chama-se sarampo, por causa das
bolinhas que eu fiz no fim. Mas é como
se ela tivesse metido a pata na água
e agora tem que secar a meia. (risos)
E isto é um coelho que dentro
da cabeça tem um mecanismo onde andam
a saltar dois lagartos.
São dois lagartos que estão a
ajudá-lo a pensar. O coelho em vez de
ter um cérebro tem umas rodas dentadas
e pedais que accionam o pensamento, e os outros
animais também ajudam um pouco. E neste
outro caso [outro quadro] já não
se trata de nada disso; o lagarto está
a ajudar-se a si próprio, o porco tem
a cabeça cheia de coisas mas também
não está a pensar...
De onde lhe vêm estes animais
de cabeças abertas, mãos e pernas
humanas...?
Tem um bocado a ver com as minhas referências
infantis. Eu sou de Évora, cresci a relacionar-me
com os animais, numa quinta, e depois vim estudar
para Lisboa, para a Escola de Belas-Artes, e
as coisas começaram a juntar-se.
Pintura era o curso que sempre pensou
fazer?
No Ensino Secundário decidi ir para Artes
e nunca quis ir para Arquitectura nem nada disso,
foi sempre pintura.
A primeira vez que pintou uma tela,
ainda se lembra? Havia aquele nervosismo de
ser “a primeira”?
Havia um bocadinho, porque comecei com óleo
e essa é uma técnica muito difícil.
Com acrílico é muito mais fácil;
seca mais depressa, o tratamento da cor é
completamente diferente. Portanto, com o óleo
foi um bocadinho difícil. E o que fiz
foi uma natureza morta, com uma peça
qualquer à vista, ainda não era
nada da minha criatividade.
Quando essa criativida surgiu foi logo
assumida, ou teve receio em mostrá-la?
Eu desenhava nuns caderninhos.
Nas aulas?
Sim, claro. Acho que todos os estudantes devem
fazer isso. Inventava os meus bichos.
Estes bichos da última exposição:
são bichos com máquinas.
Sim. Também já fiz com brinquedos.
Gosto de os associar a brinquedos, a pedais
e outros mecanismos.
«quando se pensa no homem há
a tendência para pensar que é um
ser superior ao animal, e eu penso que estamos
todos ao mesmo nível»
Mas o que é que a faz criar
esses bichos com máquinas, é uma
noção de movimento, de acasalamento,
de intimidade/interioridade?
Já pensei sobre isso. É uma noção
de movimento mas também é um pouco
a “aumentação” do animal. Não
se trata da diminuição do homem,
porque tenho aqui animais com pernas e braços,
são sempre um bocado antropomórficos.
Mas quando se pensa no homem há a tendência
para pensar que é um ser superior ao
animal, e eu penso que estamos todos ao mesmo
nível. Por isso gosto de os misturar,
faço questão que eles convivam
uns com os outros.
Mas como é que surgem estes animais
a partir do ambiente de uma quinta?
Surgem, essencialmente, porque eu não
podia estar continuamente a repetir os mesmos
animais. Acabei por descobrir os papa-formigas,
que adorei, e ainda há pouco tempo vi
un na televisão que não tem nada
a ver com o que eu faço.
Mas no início desenhava mesmo
a vaca, o porco, as galinhas que andavam lá
pela quinta?
Sim, inclusive sempre participei nas actividades
da quinta.
Ordenhava a vaca...?
Sim, sim. E ainda gosto dessas actividades rurais.
«agrada-me a ideia de que as
pessoas se riam (...) quando olham para os meus
quadros»
O humor revela-se sempre, em todos
estes quadros.
Sou um bocado tímida, mas agrada-me a
ideia de que as pessoas se riam, achem piada
e se divirtam quando olham para os meus quadros.
Para mim é mesmo muito gratificante que
elas se sintam bem a olhar para uma coisa que
têm em casa, na parede.
E os desenhos a preto e branco?
Tenho alguns desenhos com técnica mista
com ecolina e tenho gravuras.
Aí já não se sente
a alegria das cores.
A gravura, quanto a mim, é sempre uma
atitude mais sóbria. Em relação
aos meus bichos, estão numa atitude muito
mais calma e serena. Não é tanto
para ter humor, é algo mais introspectivo.
Daí a cor mais sóbria.
Imagina os seus quadros em molduras?
Estes particularmente, não. Irrita-me,
até, um bocadinho, as molduras. Estes,
foram mesmo feitos para ficarem assim; têm
caixas altas e não imagino nada à
volta deles que os possa suportar, já
têm cor suficiente.
Há quantos anos pinta?
Não sei... desde os 12, 13 anos.
Portanto, há 10 anos. E quando
aconteceu a primeira exposição?
Aconteceu há três anos, aqui na
Galeria Trema. Fiz algumas coisas ocasionais
em Évora, mas nada de especial.
Já assumiu o papel da Artista?
Relações públicas não
é nada comigo. Mas a ideia é,
de facto, partilhar a minha obra, e às
pessoas que cá vêm basta-lhes isso;
não têm de me conhecer pessoalmente.
Quais são os planos para o futuro
próximo?
Estou a acabar a Faculdade [curso de Pintura],
o ano passado fiz o programa Erasmus em Milão
e estava a pensar em ir para fora mais um ano,
talvez novamente para Itália.
E tenciona ficar-se pela pintura?
Queria experimentar a ilustração
e aprofundar vários aspectos da gravura.
Há muita coisa que gostava de fazer em
litografia e serigrafia.
Relativamente à iliustração,
pensa enveredar um dia pela ilustração
infantil?
Acho que se pode partir daí. Mas também
me ocorre outro tipo de ilustração.
E há uma experiência em que me
agrada muito pensar, que seria alguém
escrever sobre as minhas coisas, que criasse
um conto ou outro tipo de texto a partir dos
meus trabalhos.
[www.trema-arte.pt]
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