CEM REFLEXÕES Entrevista com Peter Gasper
Reflexões


Lugar transparente
e sumarento onde
se registam
pensamentos,
preocupações, opiniões.

Cláudia Almeida  Julho 2004


Uma sensação de luz
O projecto LuzBoa, que decorre em Lisboa durante este mês, trouxe a Portugal Peter Gasper. Este brasileiro de nacionalidade alemã a fundou um novo conceito de iluminação, que apela à sensibilidade e não ao sentido da visão. Foi sobre essa filosofia que deu um workshop no mês de Junho, no Institut Franco-Portugais. Depois disso, quisemos aprofundar algumas outras questões.

Começo por lhe perguntar se tem uma definição de luz.
Luz, na verdade, a luz é uma emoção que o ser humano sente. E ela é tanto mais forte quanto mais ela for contrastada. A luz em si não é muito percebida; ela é percebida no momento em que existe também ausência de luz.

Estamos a falar da sombra?
É, pode ser a sombra. Ou a total ausência de luz. A sombra é uma espécie de ausência de luz. Você percebe mais claramente a emoção da luz quando, ao mesmo tempo, tem a possibilidade de ver a sombra. Esse contraste é que é uma emoção, que eu definiria como a luz que eu uso. Eu não uso a luz cientificamente, utilizo-a emocionalmente.

Onde entra a noite, nesse conceito de luz?
A noite, para o ser humano, é mais uma hora de repouso, não é para ver. Só que, com o advento da electricidade, o avanço da tecnologia, a noite para nós passou a ser também uma hora de viver, de sentir, de nos movimentarmos. Quando anoitece, o ser humano devia estar dormindo. Portanto a luz, à noite seria naturalmente, se necessário, um auxílio, uma maneira de se ter a possibilidade de ver artificialmente. Hoje em dia isso reflecte-se nas cidades, nas casas iluminadas.

Li que foi a partir da cenografia que começou a ter preocupações com a luz, numa altura em que estava a trabalhar em televisão. Porquê, as coisas estavam, simplesmente, mal iluminadas?
Às vezes estavam bem iluminadas, eu fazia um cenário e ficavam mais bonitas, na hora de olhar para o cenário, e outras vezes não. Essa inconstância, essa disparidade chamou-me à atenção. Porque, quando o cenário mudava para melhor, no meu conceito, não era necessariamente essa a opinião do iluminador. Foi quando desconfiei que, se aprendesse a maneira de iluminar o meu próprio cenário, teria esse controle na minha mão, ou seja, podia decidir se o cenário ficava mais ou menos bonito com a luz que eu colocasse. Acho que estava muito certo porque, a partir desse momento, passei a considerar a possibilidade de trabalhar apenas com a luz e deixar a cenografia para outros fazerem: ou o arquitecto ou o próprio Deus na Natureza ou um cenógrafo, um decorador…e eu dispunha-me, então, a tentar melhorar esse cenário desenhado por outra pessoa.

«mudei a ferramenta, passei a usar a luz».

Então, de cenógrafo passou a ser um lighting designer?  
Correcto. Apesar do meu enfoque ainda ser de cenógrafo, mudei a ferramenta, passei a usar a luz.

Depois, mais tarde, também se envolveu na Arquitectura, em trabalhos com Oscar Niemeyer. Foi só com ele que trabalhou?
Não, eu tenho hoje um escritório onde trabalho com mais de 15 arquitectos. Faço projectos para centros comerciais, lojas, residências, parques, fachadas. A iluminação de projectos de arquitectura ocupa cerca de 80% do meu tempo, até fora do Brasil.

Mas como aconteceu esse encontro com o Oscar Niemeyer?
Se eu não me engano, foi em 1982 quando, no Rio de Janeiro, foi remodelada a avenida onde fazem os desfiles das escolas de samba. Na ocasião fui chamado para dar uma assessoria ao Oscar Niemeyer no que se referia à iluminação. Percebi que, entre Óscar e eu, imediatamente houve uma empatia; eu acho que Óscar nunca tinha tido um artista para iluminar as obras dele. Era sempre engenharia de luz. Conheceu então um cenógrafo, que valorizava a plasticidade mais do que a técnica. Existe uma técnica de iluminação que se chama luminotecnia. Ela antecedeu ao lighting design – é um nome americanizado para dizer a mesma coisa, mas não é. Porque a iluminação artística propõe-se a revelar e esconder formas, enquanto a luminotecnia apenas se propõe a clarear, para que as pessoas vejam. Por exemplo: ao iluminar uma estrada, com certeza ninguém vai tentar tornar o asfalto bonito. Num jogo de futebol, está-se interessado em iluminar o campo, para se ver bem o jogo; isso é uma técnica, uma parte de iluminação que um computador faria. Em relação ao lighting design, a diferença está na sensibilidade que o artista vai ter, em qualquer projecto.

Nunca lhe apeteceu, em algum momento, fazer a edificação e a iluminação de um projecto arquitectónico?
Sim, isso já me aconteceu muitas vezes. Porque eu tenho umas noções de Arquitectura. Frequentei alguns anos do curso mas não conclui. Por isso, às vezes tenho a possibilidade de interferir na Arquitectura de pequenos espaços, como o cenário do último espectáculo do Milton Nascimento. Também projectei uma loja de jóias, onde também não se sabe onde começa a Arquitectura e onde termina a luz. Economicamente é melhor e o resultado é fantástico, porque não se sabe de onde vem a luz, ela simplesmente envolve as pessoas.

«A fotografia é, com certeza, onde a iluminação atinge a sua máxima expressão»

E a fotografia, meio por excelência para se trabalhar a luz: ela também cabe no seu trabalho?
Cabe. Eu já fiz cinema. Já tenho uma carreira longa como director de fotografia na TV Globo. Trabalhei lá doze anos na direcção de fotografia, que envolve o movimento das imagens televisivas. Digamos que o fotógrafo se preocupa com a luz em três dimensões – altura, largura e profundidade. Tenta fotografar na página de papel bidimensional uma tridimensionalidade, um volume, pintando de tal maneira os cenários de claro e escuro, que consegue essa ilusão de terceira dimensão. No cinema, existe ainda a quarta dimensão, que é a mudança da luz durante a filmagem. Há a preocupação de dizer que anoiteceu, por exemplo, muitas vezes com o mesmo cenário. Cria-se uma iluminação ao longo do tempo, como no teatro. A fotografia é, com certeza, onde a iluminação atinge a sua máxima expressão. Ainda mais, numa época em que ainda se trabalha com a fotografia plana, ou seja, a imagem da televisão é como se víssemos o mundo com um olho só. Não existe a profundidade a que estamos habituados, por vermos com dois olhos.

É a técnica que pode prejudicar a iluminação ou é mais a falta de criatividade?
Todo o ser humano em princípio é criativo. A pessoa que faz luminotecnia é criativa tecnicamente, cria formas de ver melhor. O lighting designer cria formas de ver com emoção, importa-se com o que sentimos e não só com o que vemos. A minha actividade veio inaugurar, exactamente, essa preocupação com o lado plástico.

Em relação ao seu projecto de criação de um Instituto da Luz: está a avançar?

Sim, vai ser no Brasil. Pretendo terminá-lo daqui a dois anos. Estou a fazê-lo sozinho, sem nenhuns apoios, por isso é que está a demorar mais tempo.

«Quero estudar o prazer ou o não prazer ao provocar a luz.»

Começou quando?
Há cinco anos. Será um Centro de Pesquisa de Iluminação Subjectiva. É um nome um pouco complicado, mas serve para levantar a dúvida sobre o que será. Quero mostrar para as pessoas como é que o sujeito percebe a luz, e não como ele faz a luz. Objectivamente, até uma criança sabe iluminar, com uma lanterna na mão. Mas isso não me interessa. Quero estudar o prazer ou o não prazer ao provocar a luz.



top  |  Cláudia Almeida (bio)
claudiavalmeida@hotmail.com


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