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Uma sensação de luz
O projecto LuzBoa, que decorre em
Lisboa durante este mês, trouxe a Portugal Peter
Gasper. Este brasileiro de nacionalidade alemã
a fundou um novo conceito de iluminação, que
apela à sensibilidade e não ao sentido da visão.
Foi sobre essa filosofia que deu um workshop
no mês de Junho, no Institut Franco-Portugais.
Depois disso, quisemos aprofundar algumas outras
questões.
Começo por lhe perguntar
se tem uma definição de luz.
Luz, na verdade, a luz é uma emoção que o ser humano sente. E ela é tanto mais
forte quanto mais ela for contrastada. A luz
em si não é muito percebida; ela é percebida
no momento em que existe também ausência de
luz.
Estamos a falar da sombra?
É, pode ser a sombra. Ou a total ausência de luz. A sombra é uma espécie de ausência
de luz. Você percebe mais claramente a emoção
da luz quando, ao mesmo tempo, tem a possibilidade
de ver a sombra. Esse contraste é que é uma
emoção, que eu definiria como a luz que eu uso.
Eu não uso a luz cientificamente, utilizo-a
emocionalmente.
Onde entra a noite, nesse
conceito de luz?
A noite, para o ser humano, é mais uma hora de repouso, não é para ver. Só que,
com o advento da electricidade, o avanço da
tecnologia, a noite para nós passou a ser também
uma hora de viver, de sentir, de nos movimentarmos.
Quando anoitece, o ser humano devia estar dormindo.
Portanto a luz, à noite seria naturalmente,
se necessário, um auxílio, uma maneira de se
ter a possibilidade de ver artificialmente.
Hoje em dia isso reflecte-se nas cidades, nas
casas iluminadas.
Li que foi a partir da cenografia
que começou a ter preocupações com a luz, numa
altura em que estava a trabalhar em televisão.
Porquê, as coisas estavam, simplesmente, mal
iluminadas?
Às vezes estavam bem iluminadas, eu fazia um cenário e ficavam mais bonitas,
na hora de olhar para o cenário, e outras vezes
não. Essa inconstância, essa disparidade chamou-me
à atenção. Porque, quando o cenário mudava para
melhor, no meu conceito, não era necessariamente
essa a opinião do iluminador. Foi quando desconfiei
que, se aprendesse a maneira de iluminar o meu
próprio cenário, teria esse controle na minha
mão, ou seja, podia decidir se o cenário ficava
mais ou menos bonito com a luz que eu colocasse.
Acho que estava muito certo porque, a partir
desse momento, passei a considerar a possibilidade
de trabalhar apenas com a luz e deixar a cenografia
para outros fazerem: ou o arquitecto ou o próprio
Deus na Natureza ou um cenógrafo, um decorador…e
eu dispunha-me, então, a tentar melhorar esse
cenário desenhado por outra pessoa.
«mudei a ferramenta, passei a usar a luz».
Então, de cenógrafo passou
a ser um lighting designer?
Correcto. Apesar do meu enfoque ainda ser de cenógrafo, mudei a ferramenta, passei
a usar a luz.
Depois, mais tarde, também
se envolveu na Arquitectura, em trabalhos com
Oscar Niemeyer. Foi só com ele que trabalhou?
Não, eu tenho hoje um escritório onde trabalho com mais de 15 arquitectos. Faço
projectos para centros comerciais, lojas, residências,
parques, fachadas. A iluminação de projectos
de arquitectura ocupa cerca de 80% do meu tempo,
até fora do Brasil.
Mas como aconteceu esse encontro
com o Oscar Niemeyer?
Se eu não me engano, foi em 1982 quando, no Rio de Janeiro, foi remodelada a
avenida onde fazem os desfiles das escolas de
samba. Na ocasião fui chamado para dar uma assessoria
ao Oscar Niemeyer no que se referia à iluminação.
Percebi que, entre Óscar e eu, imediatamente
houve uma empatia; eu acho que Óscar nunca tinha
tido um artista para iluminar as obras dele.
Era sempre engenharia de luz. Conheceu então
um cenógrafo, que valorizava a plasticidade
mais do que a técnica. Existe uma técnica de
iluminação que se chama luminotecnia.
Ela antecedeu ao lighting design – é
um nome americanizado para dizer a mesma coisa,
mas não é. Porque a iluminação artística propõe-se
a revelar e esconder formas, enquanto a luminotecnia
apenas se propõe a clarear, para que as
pessoas vejam. Por exemplo: ao iluminar uma
estrada, com certeza ninguém vai tentar tornar
o asfalto bonito. Num jogo de futebol, está-se
interessado em iluminar o campo, para se ver
bem o jogo; isso é uma técnica, uma parte de
iluminação que um computador faria. Em relação
ao lighting design, a diferença está
na sensibilidade que o artista vai ter, em qualquer
projecto.
Nunca lhe apeteceu, em algum
momento, fazer a edificação e a iluminação de
um projecto arquitectónico?
Sim, isso já me aconteceu muitas vezes. Porque eu tenho umas noções de Arquitectura.
Frequentei alguns anos do curso mas não conclui.
Por isso, às vezes tenho a possibilidade de
interferir na Arquitectura de pequenos espaços,
como o cenário do último espectáculo do Milton
Nascimento. Também projectei uma loja de jóias,
onde também não se sabe onde começa a Arquitectura
e onde termina a luz. Economicamente é melhor
e o resultado é fantástico, porque não se sabe
de onde vem a luz, ela simplesmente envolve
as pessoas.
«A fotografia é, com certeza, onde a iluminação atinge a sua máxima expressão»
E a fotografia, meio por
excelência para se trabalhar a luz: ela também
cabe no seu trabalho?
Cabe. Eu já fiz cinema. Já tenho uma carreira longa como director de fotografia
na TV Globo. Trabalhei lá doze anos na direcção
de fotografia, que envolve o movimento das imagens
televisivas. Digamos que o fotógrafo se preocupa
com a luz em três dimensões – altura, largura
e profundidade. Tenta fotografar na página de
papel bidimensional uma tridimensionalidade,
um volume, pintando de tal maneira os cenários
de claro e escuro, que consegue essa ilusão
de terceira dimensão. No cinema, existe ainda
a quarta dimensão, que é a mudança da luz durante
a filmagem. Há a preocupação de dizer que anoiteceu,
por exemplo, muitas vezes com o mesmo cenário.
Cria-se uma iluminação ao longo do tempo, como
no teatro. A fotografia é, com certeza, onde
a iluminação atinge a sua máxima expressão.
Ainda mais, numa época em que ainda se trabalha
com a fotografia plana, ou seja, a imagem da
televisão é como se víssemos o mundo com um
olho só. Não existe a profundidade a
que estamos habituados, por vermos com dois
olhos.
É a técnica que pode prejudicar
a iluminação ou é mais a falta de criatividade?
Todo o ser humano em princípio é criativo. A pessoa que faz luminotecnia é
criativa tecnicamente, cria formas de ver melhor.
O lighting designer cria formas de ver
com emoção, importa-se com o que sentimos e
não só com o que vemos. A minha actividade veio
inaugurar, exactamente, essa preocupação com
o lado plástico.
Em relação ao seu projecto
de criação de um Instituto da Luz: está a avançar?
Sim, vai ser no Brasil. Pretendo terminá-lo daqui a dois anos. Estou a fazê-lo
sozinho, sem nenhuns apoios, por isso é que
está a demorar mais tempo.
«Quero estudar o prazer ou o não prazer ao provocar a luz.»
Começou quando?
Há cinco anos. Será um Centro de Pesquisa de Iluminação Subjectiva. É um nome
um pouco complicado, mas serve para levantar
a dúvida sobre o que será. Quero mostrar para
as pessoas como é que o sujeito percebe a luz,
e não como ele faz a luz. Objectivamente, até
uma criança sabe iluminar, com uma lanterna
na mão. Mas isso não me interessa. Quero estudar
o prazer ou o não prazer ao provocar a luz.
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