|
Em Agosto de 1954, largos anos antes das novelas
que fizeram dele um dos grandes nomes da ficção científica, Philip
K. Dick publicava, na revista If, um conto (com tanto
de fantasia quanto de ficção científica) intitulado «Exhibit Piece».
George Miller, historiador e museólogo do século XXII, revela uma
tal paixão pelo seu trabalho enquanto conservador da secção de História
da América do Século XX que usa roupas e adereços da época (entre
os quais se conta uma pasta de pele de crocodilo) e se esforça por
assimilar o dialecto. A sociedade mudou entretanto, e aquilo que
ainda hoje conhecemos como o «American Dream» foi substituído pelo
Directorado Mundial, um sistema altamente burocratizado em que cada
um desempenha funções bem precisas em nome do bem comum. Talvez
devido ao conhecimento que adquiriu sobre a época, e percebendo
o claro contraste com a sua, o fascínio torna-se escapismo, inicialmente
inócuo.
Numa das suas inspecções de rotina, ouve um ruído
proveniente da ultra-realista exibição, aparentando que alguém a
invadiu. Ao entrar, torna-se num cidadão de meados do século XX
perfeitamente integrado numa família e num emprego, como se tivesse
transposto um portal no tempo. Apenas algo o impede de sentir-se
em casa: o facto de, ao contrário de todas as outras personagens
desse continuum temporal, supor que se encontra no interior
de uma exposição de museu.
Sem abandonar o século XX (ou a ilusão de que aí vive), consulta
um psiquiatra, que procura levá-lo a descobrir uma contradição na
sua crença. Um pouco mais tarde, deambulando pelo seu escritório
do século XX, reencontra a passagem temporal, conseguindo através
dela dialogar com o director do museu, que sem tardar o acusa de
um delírio psicótico. Forçado a escolher, opta pela paixão e por
aquilo que identifica com uma liberdade e com um conforto nunca
igualados em nenhuma outra época, apesar das ameaças de desmantelamento
da exposição.
Ainda que escrito em quase início de carreira,
o conto termina de uma forma que exibe já algumas das marcas características
de Dick e, pelo menos quando comparado com outros contos do mesmo
período, deixa entrever numa segunda leitura uma visão crítica dos
anos 50 que então eram os seus: sob o ideal da família perfeita,
do Welfare State e dos electrodomésticos, escondia-se o papel
subalterno atribuído às mulheres, a guerra fria e a ameaça nuclear,
e ainda a identificação do «Inimigo» com o exterior, fosse ele comunista
ou um invasor de outro planeta.
Poder-se-ia explicar a ascensão da ficção científica enquanto género
– em particular durante a «era
dos magazines» (e portanto do domínio do conto sobre a narrativa
mais extensa) – como o director de George Miller procura explicar
o fascínio deste por uma época que não é a sua: como escapismo.
Ao contrário, aquilo que o conto de Dick parece querer dizer é –
como Miller conclui, deturpando alguns comentários do seu psiquiatra
no século XX – que a ficção científica, quando lida nas entrelinhas,
põe em causa o estatuto da realidade enquanto algo «não problemático».
Por mais que o ideal de perfeição de George Miller corresponda ao
momento em que Philip
K. Dick escreveu o conto, não é difícil descobrir nessa escolha
(que tem como paralelo a opção de Miller pelo século XX) uma grande
ironia. |
|
|
A notícia surgiu há dias nos meios de comunicação
social – por exemplo no Público de 18 de Junho de 2004 –
e nela podia ler-se que foi inaugurado em Seattle o Museu
da Ficção Científica. O museu foi financiado por Paul Allen,
co-fundador da Microsoft e cotado como o quinto homem mais rico
do mundo, factos que muito provavelmente se reflectem no acervo
em exibição.
Mas vamos por partes. Como pode mostrar-se a ficção
científica? Difícil sabê-lo se não se define primeiro o que é ficção
científica. Antes de mais, é um género literário (note-se
a ênfase no adjectivo), com raízes – forçando um pouco a história
da literatura – tão antigas quanto a História Verdadeira,
que Luciano de Samósata escreveu na Grécia do século II, e onde
a personagem principal viaja até à Lua. Só nasce contudo enquanto
género – de novo uma ênfase – já no século XX, pouco antes
da década de 30, com as revistas pulp. Júlio Verne, H. G.
Wells e mesmo Edgar Allan Poe podem portanto ser os pais (adoptados
pelos seus próprios filhos literários), mas pertencem ainda a uma
zona de fronteira. O género sofreu rápidas evoluções: depois das
primeiras décadas, ainda hoje consideradas a golden age,
em que o circuito editorial não ajudava ao prestígio académico (com
algumas raras excepções no continente europeu), editores como Anthony
Boucher e Horace Gold,
responsáveis respectivamente pelas revistas Magazine of Fantasy
& Science Fiction, Galaxy e mais tarde também pela
If, procuraram elevar os standards literários. Uma
reacção extrema com esse mesmo objectivo foi a chamada New Age
dos anos 60. Na década seguinte abrandaram os vanguardismos mas
o conto perdeu ainda mais terreno em favor das narrativas extensas,
na de 80 surgiu o movimento Cyberpunk, e desde então o género
começou a «normalizar-se», com evoluções, inovações, regressos aos
«pais fundadores» e tudo o que caracteriza qualquer outro modo literário.
Não saímos ainda da literatura. O cinema narrativo
nasceu quase na mesma época e, talvez por beber do mesmo «espírito
do tempo», encontrou em temas semelhantes (o futuro, a exploração
espacial, a ameaça extraterrestre, …) uma fonte abundante de histórias
a contar. Mais ou menos na década de 50, talvez devido a inovações
nos efeitos especiais, talvez devido à paranóia
motivada pela guerra fria, a afinidade entre cinema e ficção
científica atinge um auge que a televisão soube estender por ainda
mais tempo. Mas as artes da imagem em movimento – note-se que falamos
de meios de massa – dificilmente se prestaram às mesmas sofisticações
da literatura. Cinema e televisão, com a sua paixão pelo «efeito
especial», recrutaram do género literário essencialmente topoi
como a space opera ou a ameaça alien, e mesmo nestes
restringindo-se ao tratamento superficial que os entendidos apelidam
de sci-fi. Numa expressão comum, a parra em vez da uva.
Regressando à questão inicial, o que pode mostrar-se
num museu dedicado à ficção científica? Essencialmente aquilo que
é para ser visto, aquilo que deleita o olhar. Mesmo as subtilezas
estilísticas de uma short
story ou de uma novela têm de ser reduzidas à exibição de
um excerto do filme a que deram origem ou quando muito da capa da
revista onde foram editadas pela primeira vez. Ao olhar para o edifício
que abriga o museu, da autoria do arquitecto Frank Gehry (também
autor do Guggenheim de
Bilbao e do futuro casino de Lisboa), adivinha-se o que estará
lá dentro: sci-fi. |
|
|
A Internet é mesmo assim: ganha quem primeiro
registar o nome. Apesar do novo Museu da Ficção Científica em Seattle,
quem arrisque escrever sciencefictionmuseum.com
depara-se com um site dedicado a Horace L. Gold (1914-1996)
e às revistas de ficção científica de que foi editor: a Galaxy,
que fundou e editou entre Outubro de 1950 e Outubro de 1961 (tendo
passado a pasta a Frederik Pohl na sequência de um acidente de automóvel),
a If (editor entre Julho de 1959 a Setembro de 1961) e ainda
a Beyond Fantasy Magazine (uma curta vida, de Julho de 1953
a Janeiro de 1955). Praticamente todos os grandes autores da golden
age e das décadas que se seguiram tiveram aí lugar: Frederik
Pohl, C. M. Kornbluth, Clifford D. Simak, Philip
K. Dick, Theodore Sturgeon e Isaac Asimov.
Sendo a Internet um meio tão distinto do museu,
sendo inclusive tantas vezes – como é o caso – resultado de paixões
individuais e não de necessidades institucionais, o que pode dar-nos
um museu virtual, ainda mais imaginário do que o de André
Malraux? Por enquanto pouco. Mas a experiência não conduz à
desilusão, e sim à vontade de mais. A revista Galaxy é a
protagonista, sendo por ora mostrados os índices e as capas de Outubro
de 1950 a Dezembro de 1958 (cuidado com alguns links quebrados
– as datas são mesmo estas!). Prevê-se para um futuro breve adicionar
pelo menos um resumo ou um excerto de 250 palavras das histórias
e editoriais que preencheram a revista ao longo do «reinado» de
Gold, mas o trabalho é, como se adivinha, hercúleo. Horace L. Gold
volta a ocupar uma posição de destaque nas secções sobre os «Horace
Awards» – um de entre muitos prémios que demonstram a vitalidade
da ficção científica (apesar de a data mais recente ser 2000) –
e na galeria de fotos. Há ainda lugar para um fórum, para listas
de livros e filmes recomendados, e ainda para a publicação de histórias
submetidas aos coordenadores do site.
É necessário reconhecer que é ainda pouco, e como
tantos outros projectos também este vive permanentemente à beira
de ficar pelo caminho. Contudo, se comparado com o museu
de Seattle, depressa ressalta uma profunda diferença: neste
modesto museu virtual sente-se a paixão pela literatura, pelo género
«ficção científica» enquanto forma de expressão acima de tudo escrita.
Num género em que o futuro é o tempo predominante, é aí possível
a homenagem ao passado
que ainda vive, tanto quanto a divulgação da escrita e dos aspirantes
a escritores do presente. Os efeitos especiais estão quase
ausentes do site: tendo em conta que esse foi, na FC, um
dos objectivos em que Horace Gold mais se empenhou, dificilmente
se lhe fará melhor justiça. |
|
|
«“You’re wasting your time”, Miller
said. He turned and walked off, down the pavement, to the gravel
path and up on the front porch of the house.
In the living room he threw himself
down in the easy chair and snapped on the television set. Then he
went to the kitchen and got a can of ice cold beer. He carried it
happily back into the safe, comfortable living room.
As he was seating himself in front
of the television set he noticed something rolled up on the low
coffee table.
He grinned wryly. It was the morning
newspaper, which he had looked so hard for. Marjorie had brought
it in with the milk, as usual. And of course forgotten to tell him.
He yawned contentedly and reached over to pick it up. Confidently,
he unfolded it – and read the big black headlines.
RUSSIA REVEALS COBALT BOMB
TOTAL WORLD DESTRUCTION AHEAD»
Philip K. Dick, in «Exhibit Piece» |
|