Por Raquel Dionísio
Ensina pessoas da dança há mais de três décadas, mas nem por isso se considera uma pedagoga. Tinha 19 anos quando começou, e continua a afirmar que, sobretudo, adora aprender. Chama-se Lisa Nelson e começou, no início dos anos 70, a “escrever” história na dança. Investigadora apaixonada do movimento, foi, sem dúvida, um dos motores desta arte tal como ela existe hoje. No seu percurso, têm particular importância as inúmeras colaborações que ao longo do tempo tem vindo a desenvolver com Steve Paxton. Lisa Nelson é também, desde 1977, co-editora da revista Contact Quarterly – a vehicle for moving ideas , publicação semestral sem par dedicada a conteúdos de dança, improvisação, performance e artes do movimento contemporâneo.
Na sua visita a Lisboa em Março, ficou surpreendida e satisfeita por encontrar aqui um público de dança bastante heterogéneo, algo que considera raro. «Cria-se uma condição muito especial para fazer performance» quando pessoas das mais diversas áreas, desde a música às artes plásticas, às terapias, ao mundo audiovisual, se interessam por aquilo que vai surgindo numa forma de arte, que, hoje em dia, combina cada vez mais vez todas as outras. «Nos Estados Unidos, o público da dança é muito limitado: são sobretudo bailarinos ou músicos à procura de um emprego como compositores para dança», contrapõe.
Fazedora de danças desde criança, performer de improvisação e artista de colaboração, Lisa tem dedicado a sua vida à atenção da presença no corpo e no movimento. «Quando um performer está presente, fico realmente feliz!», exclama. «Não importa o que ele esteja a fazer, qual seja o idioma. E quando isso acontece, fico mesmo grata… Claro que isso não é tudo, também tem a ver com o estar a olhar para o espaço ou para os indivíduos. Se o espaço não é interessante ou não me apela, eu vou à procura de outra coisa, como todos fazemos... E se eu encontro um performer que é interessante, fico muito contente».
É, todavia, nos laboratórios de pesquisa de movimento que, na sua opinião, se vêem as melhores performances , pois neles vemos realmente o potencial daquilo que o ser humano pode ser e comunicar. «A investigação é tão excitante, e raramente vista à luz do dia», refere. E isso tem a ver com essa «transparência» da pessoa que está realmente presente. «O que é engraçado na dança é que o corpo é o meio, o instrumento de uma forma de arte. O corpo torna-se o veículo para que algo passe através dele – e é isso o mais difícil… Penso que isso acontece interiormente quando a atenção do performer está profundamente no corpo. O corpo fica realmente ligado à acção que desempenha, qualquer que ela seja… mas em dança, a questão está em aceitar activamente o que se está a fazer e deixar que isso se torne físico, sem necessidade de lhe acrescentar qualquer outra coisa. Muitas vezes o performer tem essa espécie de transparência», continua.
Desde os anos 70 que se dedica intensamente à exploração do papel dos sentidos na observação do movimento e na performance. De momento, Lisa está a explorar e a desenvolver uma partitura ( score ) de comunicação não apenas para pessoas da dança, mas de várias disciplinas: «olhamos para quê, quando vemos algo em dança?» Segundo Lisa, essa partitura é «uma maneira de criar sistemas de feedback , onde podemos mostrar e debater entre nós o que estamos a ver quando olhamos para outro ser humano que nos comunica algo através do movimento».
No Ocidente, a dança chega-nos, na sua tradição, como uma arte essencialmente visual, porque tendemos a experienciá-la olhando para ela. «Mas na sua história, claro que a dança era participativa, não se tratava de olhar para uma pessoa a dançar», explica. «Tem surgido muitas vezes esta questão sobre a peculiaridade de fazer do corpo uma forma de arte. O corpo oferece uma imagem às pessoas, que se traduz e ganha sentido ao ser vista, percepcionada». Daí a proeminência dos olhos e da composição do olhar na sua pesquisa. «Os olhos não costumam ser usados no sentido de percepcionar significados a partir da luz, mas é assim que os usamos quando dançamos». Há uma constante composição da visão, do olhar, em resposta a um ambiente muito complexo, já que, estando o corpo em movimento, também o está aquilo que o rodeia. Para Lisa, esta composição não é algo de exterior, trata-se sim da maneira como o corpo se predispõe a dar ou receber, ouvir ou comunicar: É uma composição de atenção no corpo e uma composição da matéria, do próprio corpo físico. Deste modo, o «ver» toma um significado diferente daquele que usualmente lhe atribuímos, inclui também um «ver» menos dirigido, mais desfocado, levado pela forma, pela cor, pelas mudanças de luz.
«Estou a usar o meu tempo nos anos que correm para olhar para a comunicação, uma área em que simplesmente não vejo muito trabalho», prossegue. «Essa comunicação começa com um diálogo interno, um diálogo do corpo consigo próprio. E depois baseia-se muito na ideia de como lemos o outro». Nos seus laboratórios de movimento, Lisa não procura «melhorar» o corpo, mas apenas envolver-se neste diálogo com quem quiser comunicar. «E quando trabalho com pessoas de disciplinas diferentes, é maravilhoso». Aos alunos que os frequentam, Lisa procura passar «algumas coisas muito simples sobre o corpo em movimento num ambiente: como o corpo reage, age sobre e recebe a acção desse ambiente». Assumindo à partida que todos têm um «instrumento expressivo», Lisa quer permitir às pessoas que se conheçam a si próprias. As práticas realizadas são muito específicas – «pele, osso, músculo, atenção...» – não requerendo um conhecimento especializado. «Deste modo, torna-se possível trabalhar com pessoas com corpos muito diferentes».

Nota: Lisa Nelson foi a convidada da edição de Março 2005 dos debates informais 100 Horas de Conversa, no C.E.M., Centro em Movimento, em Lisboa, aquando da sua estadia na cidade como parte da equipa de formação do Curso de Coreografia da Fundação Calouste Gulbenkian, a decorrer.
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