CRIAÇÃO!
Soloooooooooooooooooooooooooooooooooo
por Mariana Lemos
Está a aparecer na dança uma historia de amor...
como se Brasil e Portugal fossem se apaixonar alguma (outra) vez!
Escrevo este texto para compartilhar palavras sobre o processo de criação de:
“E se o fado fora ser cariboca...”
fado=destino
cariboca=filho do português com índio
...Os índios tinham medo que o céu lhes caísse por cima e que a terra lhes fosse embora dos pés...os homens que navegavam em busca de terra nova tinham medo de cair no buraco do fim do mundo...eu tenho medo de não saber do próximo passo...mas este meu medo é também desejo...e quando transformado em coragem esta fragilidade é o encontro da minha força!
“O menino índio é criado sem panos... e com medo embutido suficiente para virar coragem..
Não conhece pecado e erro. Pra ele a vida é desafio e instinto de sobrevivência.”
Comecei a criar um novo trabalho, uma peça de dança para uma pessoa dançar. Um solo?
E me apareceu logo toda a história de identidade e raiz. Antes do espanto, digo que não é pra falar da minha própria, mas através dela encontrar a tua e a dele e a dela e a nossa...
As minhas histórias vêem encantadas de floresta e mandioca, por que cresci embriagada deste imaginário que agora parece tão fresco quanto exótico. E este sabor a algo estranho é por que também eu sou filha de alemão, de português, com negro, com índio com sei lá o que mais...e este corpo misturado é pura inquietação.
“Povo mais possível de se misturar como o português não houve e não há...”
Perguntada sobre o eco que a palavra autenticidade em mim fazia...e o que é ser brasileira, e quais as minhas questões quando danço...só consegui encontrar possível resposta dizendo que faz sentido dançar as perguntas. A vontade de encontrar o lugar comum na diferença, não mais sublinhá-la, me faz todo sentido. Onde é que nos encontramos e reconhecemos?!E que é pela sobrevivência e por vontade de transformação que eu danço. E este corpo inquieto e redondo é por mim entendido como lugar de trânsito e comunicação...e se isso é ser ou por ser brasileira não afirmo com tudo, mas que é da raiz, ah isso é!
O processo de criação deste trabalho tem fluido entre leituras, conversas com amigos e pessoas interessadas no assunto e muita investigação no corpo... no corpo que dança!
Neste domingo vou confrontá-lo pela primeira vez, apresentado os dez minutos que saíram em volta de muita água também.
“O índio faz sua casa de palha e barro... quando a terra seca, vai em busca de outra pra descobrir e desvendar...o homem branco constroe casa de pedra e cal e quer ficar ali pra sempre!”
leituras deste momento (e de sempre!!!) : “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freire, “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda, “Sagarana” de Guimarães Rosa.

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