10.23.2006

Tenho andado a pensar sobre a morte enquanto componente da vida. O Alex fez-me um dia notar que as árvores saudáveis têm folhas mortas. Há duas quintas feiras atrás morreu alguma coisa em mim e tem sido complicado retecer a percepção daquilo que me rodeia. Desfez-se mais um dos filtros que me permitem ler o mapa da existência e ficou o sabor do buraco. Deve ser porque sou um mortal grão de pó e ainda não vejo para lá das palavras "perca", "fim", "desfazer"...Tenho estado atenta aos ciclos. Os ciclos do dia e da noite, os ciclos das estações do ano, os ciclos menstruais, as batidas do coração. A vida explica isto tão bem e parece sempre haver necessidade de tanta coragem para não sucumbir ao desconforto. Desde ontem que me dói o peito, a gatinha Muni está aqui ao pé de mim à espera que lhe ponha comida fresquinha no prato e vai-se lambendo cheia de paciência. Agora foi a correr atacar uma peça de lego. O André, meu filho, está a dormir, a crescer.É tão curioso, tão cheio de velocidade, está apaixonado pela vida. Também eu.
Ocorrem-me muitas possibilidades de viver sem poder viver. Formas de anorexia em que o corpo se priva de ser. Choveu ontem todo o dia, a força do vento e da água nunca se rendeu. Chove ainda.
Por muito que nos apercebamos do amor, do sopro, continuamos a duvidar daquilo que não vemos...ainda não saímos do "vi claramente visto o lume vivo" de Camões...Conseguimos com facilidade desfocar a acção de existir e desmultiplicarmo-nos em tarefas que trazem ruído à limpidez. Burocracia na própria respiração.
Andra, sorrir, abraçar, conversar, contemplar, brincar, passam a ser nada.
Preferimos tratar o sofrimento de não estar em movimento com a vida e encher o dia de químicos em comprimido. Tanto sofrimento e tanta falta de atenção.
Tanta necessidade de sair de tudo e identificar tudo!
existo logo existo.
Até já Sofia Neuparth

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