12.28.2006

na mercearia do senhor Manel

Ontem resolvi encostar-me ao balcão da mercearia do senhor Manel e esquecer-me que tinha que ir fazer o jantar e arrumar coisas. Vejo sempre lá gente de volta das cervejinhas, do copito de vinho e das conversetas e admiro a dedicação dele e da dona Irene...dedicam-se às pessoas, fazem diariamente aquilo que é o meu investimento desde há anos:estar com qualidade!
"Não vou mais de três semanitas de férias no verão senão fico com saudades disto aqui.-diz ele de volta do bloquinho de notas onde leva tempo e mais tempo a rabiscar a lápis as contas dos clientes. Depois vai pesar a alface outra vez, já muita água se passou para o ar e ainda pode abater uns cêntimos, não se engana ninguém.-Veja lá que há um prédio todo arranjado de novo aqui na rua onde as pessoas entram no elevador e não se falam!Lá vão caladas metidas para dentro, fechadas no mesmo sítio...isto vai de mal a pior!
Pois se vai ou não não sei mas doeu-me a estranheza dele, ninguém se fala. Eu bem passo por doida a falar a toda a gente rua fora mas caíu-me esquisito o reparo do senhor Manel. Puz-me logo a dizer que não era bem assim, que cabia a cada um de nós ir regando o seu quintal para que se transformasse num grande jardim colectivo e blá blá blá...Mas ele teve que dizer ao carteiro que não podia ficar com as cartas das pessoas daquele prédio porque ninguém lho tinha pedido e não queria represálias...diz que há uns anos largos passava a mercadoria atada a um cordel para os vizinhos da rua de baixo que só lá íam uma vez por semana acertar contas e falas; diz que se faziam fogueiras pelos santos e que nas noites de verão andava tudo pela rua em jogatanas e outras brincadeiras até lá pr'ás duas da manhã. "O seu nome é que ainda não sei lá muito bem"-disse o senhor Manel, já mais dois clientes esperavam vez para levar a fruta fresca ou as nozes. "Chamo-me Sofia e o meu filho é o André"
"Pois o nome do seu filho já o ouvi na sua boca mas na dele só oiço mãe..."Penso que ficámos a fazer parte do rol de amigos da casa agora que já vai para um ano que nos mudámos para aqui! É preciso tempo...o que não é preciso é pressa.
até para o ano! que saibamos todos encontrar um tempo para ter tempo!!!
Sofia Neuparth
Já têm a merceairia há 40 anos e a dona Irene, quando lhe disse que estava muito orgulhosa de ter acolhido na minha casinha 15 familiares pelo natal, foi-me logo contando que por altura lá de um baptizado ainda eles moravam mesmo na mercearia ainda lá teve 70 pessoas em festa e agora que já tem a casita do outro lado da rua chegam a caber lá uma centena...é só acrescentar água à sopa!

1 Comments:

Blogger Filipa said...

Olá!Devo dizer que para meu grande espanto esta é a merceria que vou todos os dias e estes dois senhores: Sr.Manel e Dona Irene são meus amigos. Ali há sempre uma grande concentração de velhotes e são os jovens que nunca dão conversa. Mas não todos. Já lá passei muitas horas da minha vida a conversar e tenho 24 anos. Só gostava que esta merceria e esta rua tivessem uma história justa: é um lugar mágico onde se vive em comunidade e harmonia e o prédio da frente novo (que onde eu moro) contribui para este ambiente. Deixo lá as chaves todos os dias, recados, fico a dever...
Ainda há muitas destas em Lisboa e pessoas boas como eles os 2. Está na hora dos portugueses verem o copo meio cheio e darem valor ao que ainda de bom existe e não deixar que isso seja anulado por más atitudes de individualismo e desconfiança. VAMOS PARAR DE SER FATALISTAS!!!!!

3:36 PM  

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