um livro
Hoje acabei de ler um livro. Os dias em que acabo de ler livros são sempre especiais. Principalmente livros grossos, que fazem andar com as personagens agarradas à pele dias a fio. Nessas alturas experimento um fenómeno similar a outras experiências prolongadas na vida (não será a própria vida uma experiência prolongada dentro de qualquer coisa maior do que ela?) A de que essas personagens estiveram efectivamente mais presentes durante estes dias do que aquilo que supuz, e só agora, quando me separo delas é que sinto a sua misteriosa falta, ou melhor ainda, a adição incondicional à minha vida, condensando ideias, valores, acções à volta da sua pessoa, que eu posso agora chamar e encarnar de vez em quando.Os bons romances são arquétipicos. São coisas pelas quais já passámos em micro ou macro acontecimentos. Alguns de uma intensidade só reconhecida por nós, noutras implicando o mundo inteiro de onde somos o centro irremediável da situação.As boas histórias contam coisas que já sabíamos (não estamos assim tão longe do tempo em que éramos crianças e pediámos incessantemente a mesma história). E ao fazê-lo podemo-nos apropriar das suas personagens para encarnar partes de nós, as partes que sabem o mesmo que elas. As boas histórias são ao mesmo tempo um desenrolar de aconteimentos no tempo e uma síntese que sai envolvida numa sensação que raramente definimos por palavras. E entre esses dois pontos o leitor pode chamar a si o papel equilibrador dos dois momentos: Ora prolongar-se na narrativa, ora suspender-se na apropriação daquilo que já sabia, numa coreografia só sua.

1 Comments:
adoraria saber qual livro e esse?!
beijo
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