10.11.2007

O lugar do um


Considerando a criatividade uma característica própria do ser humano, analisando as diversas iniciativas desenhadas no sentido de resgatar o pensamento criativo, a capacidade de reinventar soluções, a apetência para a criação de um meio envolvente propício para a própria sobrevivência; observando a recorrência de projectos que investem na recuperação da autonomia, da confiança, do respeito pelo outro e por si próprio, aqui vão algumas das questões emergentes a partir do trabalho que temos desenvolvido no âmbito do cruzamento entre a arte e a comunidade e, mais especificamente, na área do acompanhamento individual e colectivo de crianças e jovens em espaços alternativos ou no seio de sistemas convencionais como a escola ou os ATLs.

Trabalhar com pessoas, com espaços (des)habitados, requer um novo conceito de intervenção que implica continuidade e investigação permanente. Implica por certo o compromisso de “estar lá”, de acompanhar todo o processo desde a sua concepção, à implementação, realização e eco.


A importância de um novo conceito de “subjectivo”

Qual a importância dada de facto ao estabelecimento de ligações desde o micro universo ao macro? Como se pode permitir o desenvolvimento pessoal, acarinhar a linguagem individual, potenciar a criação de um discurso próprio sem criar espaços vazios de relação com os outros e com o mundo que nos rodeia?

Porque é que o caminho tem forçosamente que partir desde o “objectivo” para o “subjectivo”?
È do senso comum que cada pessoa se considera única e convive dolorosamente com cada “diferença” em relação a uma massa amorfa onde se vê diluído permanentemente.

Trabalhar com a criança, com portadores de deficiências, com gangs de bairros sociais, com super dotados é sempre desindividualizar o indivíduo. È sempre partir desde a perspectiva objectiva da situação. É sempre viajar “de fora” para “dentro”.
Ao integrar um outro subjectivo não “subjectivista”, não “egocentrista” o ponto de vista passa a ser o colectivo que, na sua complexidade, é composto de movimentos claros e individualizáveis.

A História da Arte mostra-nos bem o investimento dos últimos anos num destaque à importância do processo criativo em detrimento de um isolamento do produto, da obra, enquanto único veículo do movimento artístico.
O questionamento da autoria, tão presente nas décadas de 80/90, tem vindo a ganhar terreno nomeadamente com a difusão da democratização do acesso à informação com o nascimento da net, refrescando o excesso de protagonismo do “autor”.
Também neste sentido a Arte tem contribuído para o investimento na não cristalização do “subjectivo”.

A Acção

A capacidade inventiva, a sensibilidade, a importância que imprimimos nas ligações que estabelecemos a vários níveis são os movimentos que nos conferem a capacidade de gerar Conhecimento, de gerar Cultura.
Mais do que insistentemente utilizar toda a energia possível na reimplantação dessa movimentação criativa, urge proporcionar uma ambiência que, ao invés de a sufocar, a potencie. É exactamente nessa forma de pensar e agir que as áreas artísticas surgem como motor essencial para o trabalho com pessoas de diversas idades, raças ou eficiências.
Torna-se necessário reconhecer as pequenas movimentações, os espaços próximos, a pessoa da frente e, a partir daí, criar acções com quem “está “, sejam crianças ou jovens no interior das escolas, das famílias ou dos espaços urbanos; sejam indivíduos com deficiências profundas, sejam os ditos “excluídos” ou aqueles que interagem com eles no quotidiano: professores, assistentes sociais, artistas, médicos ou pais.
Identificar “boas práticas” é fundamental. Criar modelos fixos enxertáveis em qualquer situação sem o reconhecimento das micro partículas que constituem cada “pedaço” de realidade incorre no risco paradoxal da desconsideração do um na busca para a qualidade do indivíduo.

Sofia Neuparth
Outubro de 2007

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